Ally e Ryan

Ally e Ryan

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Onde está a Deficiência?

Descrição da imagem: uma foto em formato retangular, onde apareço (sentado na cadeira de rodas)  ao lado da minha esposa, numa sala ampla com um sofá ao fundo, uma mesa atrás e outra na frente, estamos sorrindo


05/10/2012 - Claudia Sanchez.
Este artigo busca aportar elementos de reflexão em torno do tema da diversidade, da deficiência e da inclusão desde a ótica da atuação na sociedade das pessoas em situação de deficiência, de forma que contribuam na geração de ações para melhorar sua qualidade de vida, sempre e quando isso seja permitido pelo entorno, pelo meio ambiente. Para seu desenvolvimento, o artigo parte do conceito de pessoa em situação de deficiência, destaca a transcendência dos fatores ambientais e estabelece relações com a ideia de diversidade.
Pessoa em Situação de Deficiência.
Quando se fala da pessoa em situação de deficiência, está aí envolvida a relação entre a pessoa e o meio; e, como em qualquer relação, a responsabilidade por possibilitar o seu estabelecimento é tanto da pessoa como do entorno físico ou natural, tanto aquele construído pelo homem - as cidades - ou o ambiente social, também edificado pelo ser humano, que inclui as atitudes, as convicções pessoais e sociais e, finalmente, políticas e leis. Em suma, o espaço no qual uma pessoa desenvolve sua vida.
A concepção que atribui a responsabilidade da construção da deficiência à sociedade, o modelo social da deficiência, foi alcançado depois de muitos anos, como superação do modelo individual da deficiência, que colocava a condição deficiente apenas na pessoa, como uma característica intrínseca do indivíduo. A noção do efeito causado pelo entorno na edificação da deficiência e por consequência, na atuação de todas as pessoas – inclusive, da pessoa em situação de deficiência na sociedade - evoluiu bastante nas últimas décadas. Até porque as barreiras e os obstáculos ambientais e culturais não são permanentes; podem e devem ser alterados, sempre e quando os diversos segmentos da sociedade aceitem sua própria responsabilidade e a necessidade da mudança.
A Classificação Internacional de Funcionalidade, Deficiência e Saúde (CIF), utiliza o termo deficiência “para denominar um fenômeno multidimensional, resultado da interação das pessoas com seu entorno físico e social”. A existência dessa interação, como ação que se exerce de forma recíproca entre dois agentes, faz com que o próprio conceito de deficiência incorpore, de forma mais explícita ou mais implícita, a dimensão social como sendo chave, tornando incabível, então, admitir as situações de deficiência sem levar em consideração tal dimensão.
A deficiência se entende como geradora de processos, em virtude dos quais não chegam a ser adquiridos, se deterioram ou desaparecem determinados vínculos ou relações que as pessoas mantém e que lhes permite dar resposta a suas necessidades, desenvolver-se pessoalmente, participar da comunidade e obter e manter uma qualidade de vida satisfatória. Ou seja, a deficiência como uma construção entre o indivíduo e a sociedade, suscetível de ser superada, sempre e quando os processos sociais assim o permitam.
Em oposição aos enfoques da deficiência em termos de normalidade/anormalidade, estudados por diversos autores, o sociólogo Guillermo Páramo Rocha afirma que “a diversidade trata de uma dimensão fundamental que promove a assimilação das pessoas na sociedade de acordo com as condições de cada um, independentemente das peculiaridades diversas que caracterizam os indivíduos”.
Definições da CIF.
As definições estabelecidas pela CIF, no contexto da saúde, são as seguintes:
·         Funções corporais: as funções fisiológicas dos sistemas corporais (incluindo as funções psicológicas).
·         Estruturas corporais: as partes anatômicas do corpo, tais como os órgãos, os membros e seus componentes.
·         Deficiências: os problemas nas funções ou nas estruturas corporais, tais como um desvio significativo ou uma perda.
·         Atividade: a realização de uma tarefa ou ação por parte de um indivíduo.
·         Participação: o ato de envolver-se em uma situação vital.
·         Limitações na atividade: as dificuldades que um indivíduo pode experimentar no desempenho/realização de atividades.
·         Restrições na participação: os problemas que um indivíduo pode experimentar para envolver-se em uma situação vital.
·         Fatores ambientais: o ambiente físico, social e atitudinal no qual as pessoas vivem.
·         Fatores contextuais: a essência integral tanto da vida de um indivíduo como do seu estilo de vida.
Estão aqui incluídos os fatores ambientais e pessoais que podem ter efeitos na pessoa, na condição de sua saúde e nos estados ‘relacionados com a saúde’ dessa mesma pessoa. Nossa cultura tende a estigmatizar o diferente, a marginalizá-lo, a excluí-lo, ao invés de valorizá-lo, aceitá-lo e assimilá-lo como valor que tem a qualidade de enriquecer os grupos humanos. É a partir de sua diversidade que os membros de uma sociedade podem fazer sua contribuição à comunidade para construir uma sociedade inclusiva.
A falta de resposta às necessidades das pessoas em situação de deficiência faz com que a exclusão se torne social e economicamente intolerável, particularmente em países em vias de desenvolvimento, com o desperdício de talentos, de habilidades potenciais e deixando de lado uma porcentagem considerável de cidadãos com possibilidades reais de participar ativamente na sociedade.
O contrário disso, a resposta a essas necessidades, permitiria chegar a uma sociedade inclusiva, ou sociedade para TODOS, conforme o enfoque da Resolução 45/91 da Organização das Nações Unidas (ONU), assinada durante sua Assembleia Geral em dezembro de 1990.
A CIF, aprovada em 2001 e desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foi e segue sendo fundamental para a compreensão dos conceitos de funcionalidade e deficiência:
·         ao apresentar a deficiência como um processo interativo e evolutivo, na qual é necessário levar em conta a condição de saúde e os fatores contextuais, tanto ambientais como pessoais, que podem resultar limitantes para a realização de atividades e para a participação/funcionalidade das pessoas no meio social;
·         ao defender que tanto o entorno físico como o social são fatores decisivos na deficiência e as imperfeições de projetos são causa de limitações e redução de oportunidades.
A prevalência de limitações permanentes nas funções ou nas estruturas corporais, bem como a perda de habilidades em decorrência do envelhecimento, que se evidenciam nas estatísticas leva a considerar a importância e a responsabilidade que têm os urbanistas, projetistas e construtores do meio físico na busca de propostas, alternativas e soluções de edificações seguras, cômodas e confortáveis, que garantam uma melhor qualidade de vida à população em geral e permitam uma real inclusão aos grupos vulneráveis marginalizados como consequência de projetos excludentes.
Funcionalidade humana e entorno.
A funcionalidade humana é concebida pela CIF em três dimensões: biológica, psicológica e social. O termo FUNCIONALIDADE abrange funções e estruturas corporais, atividades e participação, e indica os fatores positivos da interação entre um indivíduo e seus diversos fatores contextuais.
É a restrição de tal inter-relação que impõe limites ao desempenho e à possibilidade das pessoas em situação de deficiência de se expressar produtivamente e de atingir uma melhor qualidade de vida. Quando não existe a adequada relação entre a condição de deficiência e os fatores ambientais e pessoais, surge a exclusão devido ao entorno, entorno que impede a participação ou o acesso.
A exclusão devida ao entorno - ou meio ambiente excludente - tem gerado respostas dos arquitetos, as quais têm evoluído desde a eliminação de barreiras até a concepção de novos paradigmas de projeto, como o da acessibilidade, que permite, em qualquer espaço interno ou externo, o fácil deslocamento da população em geral e o uso de forma confiável e livre de riscos dos serviços ali instalados, permitindo que as pessoas se aproximem, entrem, usem e saiam desses ambientes em condições de segurança e com a maior autonomia e conforto possíveis.
Esse meio ambiente acessível inclui, além das edificações e dos espaços urbanos públicos e privados, as relações interpessoais e as atitudes individuais e coletivas. Os fatores que fazem um ambiente ser produtor de exclusão são criados pelo ser humano - ou seja, parte da nossa cultura – sendo, portanto, reversíveis ou modificáveis. E, na medida em que o entorno excludente evolua para um entorno inclusivo, esse se torna gerador de qualidade de vida, ‘habilitador’ para as pessoas em situação de deficiência.
Também o conceito de qualidade de vida passa a se estruturar e a se fortalecer num contexto cada vez mais consciente da importância do entorno na vida das pessoas. Possivelmente, na atualidade, o entendimento da inclusão se encontra na confluência das ideias da não exclusão e aquela da acessibilidade universal (ou desenho universal, desenho inclusivo, desenho para todos), que tem como objetivo beneficiar a todos, tornando o meio ambiente mais franqueado para o maior número de pessoas e situações, entendendo e respeitando a diversidade de identidades, necessidades e capacidades de todos e de cada um.
Tanto a CIF como o desenho universal, ou acessibilidade universal, reconhecem que o meio ambiente físico possui a responsabilidade no desempenho dos seres humanos e admitem que as pessoas sem deficiência também sofrem as consequências e restrições de um entorno excludente.
O caminho na direção de uma sociedade na qual todos tenhamos as mesmas possibilidades deve começar por assumir o fato de que somos todos diferentes – maravilhosamente diferentes. Baixos. Altos. Fracos. Fortes. Corpulentos. Jovens. Velhos. E não importa se estás apaixonado, engessado ou se tens uma deficiência. Que tal se o design e a arquitetura fossem tão variados e excitantes como as pessoas para quem foram pensados?
Sociedade inclusiva e Ética da Diversidade.
A partir do princípio da inclusão se pretende um mundo e uma sociedade onde todas as pessoas tenham lugar e os mesmos direitos. No entanto, essa sociedade não é formada por seres uniformes, moldados por um mesmo padrão.
Atuar no âmbito da inclusão exige o compromisso com a chamada "ética da diversidade", que parte da premissa do direito à diferença, na qual todos os indivíduos e coletivos possuem atributos distintos e, assim, podem aportar seus valores para a construção dessa sociedade inclusiva que se almeja, aproveitando ao máximo as capacidades dos grupos heterogêneos: com esse objetivo, cada uma das pessoas é valorizada pelo que é e por suas potencialidades, independente de sua idade, sexo, raça, etnia, habilidade, etc.
Em uma sociedade inclusiva, as relações que as pessoas mantêm – e que lhes permite dar resposta às suas necessidades, desenvolver-se pessoalmente, participar na comunidade, obter e manter uma qualidade de vida satisfatória – estão determinadas pela capacidade ou possibilidade de exercer seus direitos e, em particular, seus direitos sociais, tais como o direito ao trabalho, à moradia, à cultura, à educação, à saúde, entre outros.
O conceito de qualidade de vida, como resultante da interação da pessoa com os fatores ambientais, leva em consideração os aspectos subjetivos, valores, preferências e satisfação num contexto social, econômico e político. A qualidade de vida deve estar baseada no conceito de acessibilidade e desenho universal como condição que deve atingir o entorno, os processos, os bens, os produtos e os serviços, assim como os objetos ou instrumentos, ferramentas e dispositivos para serem compreensíveis e utilizáveis por todas as pessoas em condições de segurança e conforto, da forma mais autônoma possível.
O que se busca é um mundo e uma sociedade onde todas as pessoas tenham os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Um mundo e uma sociedade onde se respeitem as diferenças e se ofereçam oportunidades de participação e construção inclusivas, que permitam a expressão e o livre desenvolvimento das potencialidades sem nenhum tipo de restrições pessoais nem ambientais para que seja possível atingir uma plena funcionalidade humana.


Bibliografia.
·         CASADO, D. (1991): Panorámica de la discapacidad. Barcelona, INTRESS.
·         CASADO, D. (1995): Ante la discapacidad. Glosas iberoamericanas. Buenos Aires, Lumen. UNIVERSIDAD NACIONAL. Maestría Discapacidad e Inclusión Social. Discapacidad e Inclusión Social. Reflexiones desde la Universidad Nacional de Colombia. Febrero de 2005.
·         FANTOVA, F. (1990): Evaluación de programas de intervención en el tiempo libre con personas con minusvalía en el Reino Unido, Italia y Francia. Elementos para un marco teórico y descripción sistemática de una selección de programas.
·         - Exclusión e inclusión social: una aproximación desde el ámbito de la discapacidad. Tercer Congreso Internacional de Discapacidad. Inclusión: oportunidades para todo. 2006.
·         NACIONES UNIDAS (1988): Programa de acción mundial para las personas con discapacidad.
·         Madrid, RPPAPM (Real Patronato de Prevención y de Atención a Personas con Minusvalía).
·         OMS (Organización Mundial de la Salud) (1983): Clasificación internacional de deficiencias discapacidades y minusvalías. Madrid, INSERSO. OMS – OPS. Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales de España., 2001. Clasificación Internacional del Funcionamiento, de la Discapacidad y de la Salud.
Do livro: Celebrando a Diversidade. Pessoas com Deficiência e Direito à Inclusão.
Edição 2010.
Organização: Flavia Boni Licht e Nubia Silveira.
Apoio: Planeta Educação - em especial, Elisete Oliveira Santos Baruel e Érika de Souza Bueno.
Capítulo III - Onde está a Deficiência?
Claudia Sanchez (Bogotá).
- arquiteta, presidente do Comitê Técnico sobre Acessibilidade das Pessoas ao Meio Físico do Instituto Colombiano de Normas Técnicas; integrante da equipe de consultores internacionais da AyA Arquitetura e Acessibilidade.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Olha como foi, meu filho!


30/09/2012 - Lívia Maria Villela de Mello Motta.

Jucilene, amiga de muitos anos, com a qual venho compartilhando muitas experiências e histórias, grande parte delas ligadas à audiodescrição, está grávida. E como toda gestante em seu pré-natal, foi fazer seu segundo ultrassom. Desde o começo da gravidez, que ela já vinha comentando que seria muito legal que eu fosse junto para fazer a audiodescrição do exame. “Nossa”, pensei, “preciso me preparar para isso…” E fui pesquisar na internet o que revelam os exames de ultrassom nas diversas semanas de gestação, tentando aprender a terminologia e conhecer as imagens para ganhar familiaridade com o tema.
Não consegui acompanhá-la no primeiro, mas neste, lá estava eu no meio dos dois, papai e mamãe, olhos grudados no monitor, tentando traduzir em palavras as imagens acinzentadas que iam sendo exibidas à medida que a médica, a Dra. Clarissa, passava o aparelho sobre a barriga besuntada de gel de Jucilene.
Comentei: "Ju, o que eu estou vendo agora não é exatamente o contorno do bebê, mas algumas bolhas de ar que se movimentam lentamente, parecendo flutuar."
Dra Clarissa foi explicando, com objetividade, cada imagem que aparecia no monitor e eu ia complementando com mais detalhes descritivos que pudessem dar a Jucilene e Sandro a possibilidade de construção da imagem mental do bebezinho, confortavelmente aninhado na barriga da mamãe. E todas as partes de seu corpinho flexionado foram sendo exibidas: a coluna vertebral curvada, o rostinho de perfil já com o nariz e boca delineados, os dedinhos das mãos fechados e um deles esticado como se estivesse a apontar, os órgãos do aparelho digestivo e urinário, os órgãos genitais que a Dra Clarissa descreveu como o casco de uma tartaruga, o coraçãozinho pulsando, os ossinhos dos braços e das pernas, o cérebro com canais finos compondo a massa encefálica.
Jucilene contou para Dra Clarissa o que é audiodescrição e sobre sua importância para as pessoas com deficiência visual. A médica explicou que já traduz as imagens mostradas no monitor para suas pacientes que enxergam, pois é mesmo difícil entender aquelas imagens ainda sem contornos definidos que não lembram formas humanas. Para as mamães com deficiência visual, mais alguns detalhes descritivos poderão fazer toda a diferença. Jucilene confirma isso em seu depoimento:
"Sou uma mamãe ansiosa por sentir em meus braços o frágil corpinho desse bebê que sinto a cada dia crescer e fortalecer dentro de mim. Este não é o primeiro filho, mas devo dizer que cada filho é único, cada gravidez tem suas particularidades. Me lembro como se fosse hoje ao fazer o primeiro ultrassom do Gianluca, que hoje tem 8 anos. Foi um momento mágico, saber que estava tudo bem, ouvir o pulsar do seu coraçãozinho. Mas confesso que seria bem interessante se tivesse um pouco mais de detalhes a cada exame. É fato que hoje temos muito mais recursos ao nosso alcance, pois se antes para gravar levávamos fita K7, imaginem o tamanho da evolução em levar hoje um DVD.
Agora que podemos usufruir deste maravilhoso recurso que é a audiodescrição, busco sempre fazer com que as pessoas me detalhem, contem o que estão vendo, mesmo que elas não façam a menor ideia num primeiro momento do que seja o recurso e sua importância para nós, pessoas com deficiência visual.
Neste período de minha gravidez, tenho conhecido muitas mamães na mesma situação que eu, que esperam ansiosas para dar a luz a mais um ser para este planeta. A única diferença é que elas enxergam e os papais também. O papai Sandro tem me acompanhado em todas as etapas desta gestação. Por isso, achei bem justo e válido convidar a nossa querida amiga para descrever este exame para nós. Transformar em palavras as imagens que ficam tão distantes aos nossos olhos. Eu ainda posso sentir o pesar da barriga, os chutes deste molequinho que se vira prá cá e prá lá dentro do meu útero. Quis tornar mais próximo do papai tudo o que acontece aqui dentro."
"Só posso dizer que mesmo ainda com os contornos cinzentos, foi uma experiência muito rica e diferente. Tenho muita sorte de ter ao meu lado pessoas tão especiais que dão ainda mais cor a este momento que para mim tem sido muito importante. Por isso, se você mamãe com deficiência visual for fazer estes exames de imagem, peça mais detalhes aos médicos. Explore sua imaginação e tenho certeza de que será o máximo. A audiodescrição não acontece apenas em teatros, cinemas ou em qualquer outro programa cultural, mas sim em tudo aquilo que não tiver palavras, mas que tenha importância para você. Faz parte do nosso dia-a-dia, afinal dizem que o mundo é visual."
O papai Sandro completa: "meus sentimentos no momento da audiodescrição foi de poder prestar mais atenção às informações técnicas passadas pela médica. Eu acho que o homem só tem mesmo noção quando pega o filho nos braços e começa a ouvir sua manha, seu choro e sua risada. Acredito que essa sensação dos primeiros 9 meses de gestação é única e somente a mulher consegue sentir e participar 100% desse momento e de suas sensações. Mas para mim isso não tira minha alegria e minha responsabilidade de participar desse momento. Acho que o homem tem que prever o que a mãe está sentindo e tentar ser o mais presente, carinhoso e atencioso do que nunca."
E essa tradução do visual para o verbal não restringe-se a futuras mamães com deficiência visual, mas estende-se também a pais que queiram acompanhar o pré-natal e o nascimento de seus bebês, a pacientes que são atendidos em hospitais ou consultórios, a pessoas que vão fazer exames em laboratórios, ou que são atendidas em clínicas de reabilitação e outros locais na área da saúde. Médicos, dentistas, fisioterapeutas e outros profissionais da saúde podem e devem introduzir mais informações descritivas em seus atendimentos a pessoas com deficiência visual, o que certamente irá informar e complementar o entendimento sobre o ambiente, instrumentos e procedimentos, baixando, com isso, a ansiedade e colaborando para um atendimento com mais qualidade, comunicação e interação. Uma atitude respeitosa que demonstra a preocupação com acessibilidade e inclusão.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

RAIS, Relação Anual de Informações Sociais 2011.



Em 2011, um total de 325.291 pessoas com deficiência estavam empregadas no mercado de trabalho formal, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). De acordo com o documento foram 19.278 novas vagas ocupadas por pessoas com deficiência, uma alta de 6,30% em relação a 2010.
O ensino médio completo concentrou o maior número de vínculos empregatícios de todas as modalidades, com 136.077 vagas ocupadas, sendo 77,7 mil destes vínculos de pessoas com deficiência Física; 27,9 mil Auditiva; 9,8 mil Visual; 5 mil Intelectual; e 1,4 mil Múltipla.
No ensino superior completo foi um total de 39.651 vínculos registrados, sendo sua maior parte, referentes à deficiência Física; no Ensino Fundamental Completo, 38.139 vínculos; do 6º ao 9º ano Incompleto do Ensino Fundamental, 34.143 vínculos; 5º ano Completo do Ensino Fundamental, 16.697 vínculos; até o 5º ano Incompleto do Ensino Fundamental, 16.298 vínculos; Educação Superior Incompleta, 14.208 vínculos; e Analfabetos, 2.560 vínculos.
Em 2011, os rendimentos médios das pessoas com deficiência foram de R$ 1.891,16. Por gênero, o homem auferiu rendimentos superiores aos das mulheres em todas as modalidades, com variações entre 58,34% para as pessoas com deficiência Auditiva a 90,17% para as pessoas com deficiência Intelectual (Mental). Por Grau de Instrução, os maiores rendimentos foram registrados no nível Superior Completo, sendo R$ 5.900,70 na modalidade deficiência Visual, e R$ 5.860,54 na Auditiva. Em contrapartida, os menores salários ocorreram nos tipos Intelectual, R$ 2.959,05; Reabilitado, R$ 3.609,45; deficiência Múltipla, R$ 3.825,56 e Física, R$ 4.251,13.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Mara Gabrilli
 
Na sexta-feira, 21, celebramos o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, um marco de 45,6 milhões de pessoas com deficiência que vivem hoje em nosso país.
Embora a última década represente importantes avanços, ainda nos deparamos com atrasos latentes no que diz respeito à acessibilidade no dia a dia de muitos cidadãos com deficiência. O Brasil possui uma das mais completas legislações que preconiza os nossos direitos, mas, ainda assim, tem gente que não pode sair de casa.
A falta de acesso ainda fere a dignidade de muitos moradores com deficiência das nossas cidades. A ausência de planejamento em mobilidade urbana dos nossos municípios impede muita gente de sair de casa, utilizar transporte público, frequentar pontos de lazer da cidade, ir à escola, trabalhar, cuidar da saúde. Ter autonomia. Dignidade.
Se em São Paulo, a mais importante cidade do Brasil, a pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida ainda passa por dificuldades de acesso – principalmente nas periferias, o que esperar de lugares mais longínquos, que pouco (ou nada) se investe em calçadas acessíveis ou transporte adaptado? Como estão os moradores com deficiência destes lugares? Que acesso têm para sair às ruas hoje e gritar pelo seu dia?
Atualmente, grande parte da população com deficiência já participa de ações na sociedade. Essas pessoas estão dispostas a lutar por seus direitos em entidades, grupos formados na internet e mesmo na política – como esta que vós fala – mas a falta de acessibilidade ainda é um impeditivo para que estas pessoas se estimulem a produzir cada vez mais.
Uma nação que adota políticas públicas que abraçam a diversidade humana não está beneficiando apenas um grupo, está contemplando o respeito às diferenças. O valor da igualdade de direitos.
Uma cidade projetada para atender cadeirantes e cegos é apta para receber idosos. Um ônibus acessível para obesos será para uma pessoa com mobilidade reduzida. A criança que convive com outra com deficiência será no futuro um adulto mais consciente e saberá não só respeitar, como valorizar a diversidade humana.
É este ciclo que hoje faz parte de metrópoles desenvolvidas. O do cidadão com deficiência estimulando o respeito às antigas gerações, sem deixar de se preocupar em atender bem as futuras. Londres, sede dos jogos paralímpicos, já fulgurava entre uma das cidades mais acessíveis do mundo, hoje, criou um legado de respeito à diversidade humana, que, inevitavelmente, fará parte do olhar e pensamento dos londrinos. E nós também teremos esse desafio a enfrentar.
O Brasil terá de planejar cidades acessíveis para sediar a Copa, as Olimpíadas e as Paralimpíadas, quando receberá centenas de turistas e atletas com deficiência. Será a nossa chance de criar nosso legado de respeito e cidadania.
A diferença entre uma nação desenvolvida está exatamente neste olhar. Neste Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, vamos praticar nosso olhar para o ser humano e suas diferentes necessidades e belezas. Olhe para as pessoas, para nossas cidades e pense em como integrá-las. Os resultados também afetarão você, tornando–o um cidadão muito mais consciente e humano.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Estudo do TCU aponta pouca acessibilidade em prédios públicos


TCU quer criar Plano Nacional de Acesso e selo nacional de acessibilidade.
No Amazonas, mais de 790 mil sofrem de algum tipo de deficiência.

Dados apresentados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) revelaram que menos de 2% dos prédios e serviços públicos federais oferecem condições de acesso adequadas a pessoas com deficiência. Na região Norte, a parcela da população com algum tipo de deficiência ultrapassa os R$ 3 milhões.

A pesquisa foi feita nas principais unidades dos órgãos públicos que mais atendem a população pessoalmente. Os dados foram coletados em 11.069 unidades.

O levantamento, elaborado em agosto desse ano, apontou que pelo menos seis prédios públicos apresentam pouca acessibilidade e não oferecem condições adequadas para pessoas que possuem deficiência física. Entre as principais barreiras listadas pelo TCu estão: a falta de pisos táteis, rampas e portas acessíveis.

Dados do Censo 2010 revelam que no Brasil existem quase 46 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Só na região Norte são cerca de 3,7 milhões estão nessa situação.

O Pará é o estado que apresenta o maior número de pessoas com deficiência, quase 2 milhões (1.790,289). O Amazonas vem logo em seguida com mais de 790 mil (790,647), seguido de Rondônia (345,580); Tocantins (307,449); Acre (165,892); Amapá (158,770) e Roraima (95,510).

Diante desse quadro, o Tribunal de Contas da União determinou que até fevereiro de 2013 a secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República adote um plano nacional que garanta o pleno acesso a repartições públicas e crie o selo nacional de acessibilidade

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A inclusão de profissionais com deficiência no mercado de trabalho: um panorama positivo para uma mudança necessária


* autoria de Jaques Haber

É indiscutível a importância das contratações de profissionais com deficiência para a economia do Brasil. Além da geração de emprego, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho contribui para trazer dignidade a essas pessoas. Ao inclui-las, não estamos apenas ofertando um salário, mas também a oportunidade de se reabilitar socialmente e psicologicamente.
É sabido que o exercício profissional traz consigo a interação com outras pessoas, o sentimento de cidadão produtivo, a possibilidade de fazer amigos, de encontrar um amor, de pertencer a um grupo social. Até o status adquirido junto à própria família muda para melhor. Sem contar que a presença de pessoas com deficiência no mercado de trabalho contribui para humanizar mais a empresa e enriquecer o ambiente corporativo com visões e experiências diversificadas.
Ao incluir pessoas com deficiência no mercado de trabalho, configura-se um novo grupo de consumidores, até então excluído da economia. Com a geração de renda, esse grupo passa a consumir avidamente, já que possui muitas carências, desde elementos essenciais, como o acesso a questões de saúde, até a concretização de desejos não tão de primeira ordem, como a compra de tablets e smartphones, por exemplo. Com a renda, as pessoas com deficiência passam a circular mais, e isto enseja maior convivência com pessoas sem deficiência, o que desperta a atenção para oportunidades de se criar mais produtos, serviços e ambientes que atendam às necessidades específicas dessa parcela da população.
Nessa perspectiva, a inclusão de profissionais com deficiência no ambiente de trabalho cria oportunidades também para as empresas gerarem mais negócios. Uma pessoa que está acostumada a enfrentar desafios diários por falta de acessibilidade ou sensibilização da população em geral, se adapta melhor ao mundo do trabalho. Uma pessoa com deficiência está mais preparada para lidar com situações críticas e a resolver problemas, além de trazer uma visão diferente, o que contribui para o processo de criação ou tomada de decisões.
Em relação à qualificação das pessoas com deficiência, podemos afirmar que segue basicamente o mesmo padrão da população brasileira sem deficiência. É um falacioso generalizar a falta de qualificação das pessoas com deficiência. Por questões de exclusão histórica, a maioria das pessoas com deficiência é pouco qualificada, mas, essa baixa qualificação também incide na população em geral. Mas, isto não significa que não existam pessoas com deficiência qualificadas. Por exemplo: no banco de currículos da i.Social , mais de 80% dos 30.000 profissionais cadastrados possuem ao menos ensino médio completo, chegando até a mestrado e doutorado.
Na esteira, observamos que o maior empecilho para a inclusão de profissionais com deficiência ainda é cultural. Ou seja, as relações interpessoais ainda estão muito calcadas em estereótipos e preconceitos. Além disso, as vagas que são oferecidas às pessoas com deficiência ainda são muito operacionais e pouco atrativas. Os líderes e gestores das empresas ainda não consideram incluir profissionais com deficiência em cargos mais estratégicos, pois tendem a achar que estes profissionais são menos produtivos ou geram mais custos com acessibilidade, o que não é verdade. Dessa forma, não é exagero afirmar que a questão cultural ainda é o maior desafio. A falta de acessibilidade é reflexo da falta de cultura inclusiva. Enquanto não transformarmos a mentalidade antiga de que as pessoas com deficiência são menos qualificadas, menos produtivas e que exigem muitos investimentos, não daremos um salto de qualidade no processo de inclusão.
Por isso, os treinamentos devem ser constantes para preparar principalmente os gestores que são as pessoas responsáveis por aprovar os candidatos. O departamento de RH pode até estar sensibilizado e aberto para a contratação de um funcionário com deficiência, mas se o gestor, que é o “dono” da vaga, não estiver informado e pronto para gerenciar a diversidade, nada será feito e o candidato com deficiência continuará preterido.
O mesmo raciocínio aplica-se se a alta liderança não aprovar vagas mais estratégicas para os profissionais com deficiência: o RH fica atado apenas às vagas operacionais, que são menos atrativas e só atraem pessoas menos qualificadas, reforçando a percepção de que pessoas com deficiência não possuem perfil necessário para posições melhores.
É por isso que sempre afirmamos que o processo de inclusão deve ser abraçado por todos os funcionários de uma empresa e todos os cidadão do Brasil.
* Jaques Haber, diretor da i.Social.

http://vidamaislivre.com.br/colunas/post.php?id=5678&%2Fa_inclusao_de_profissionais_com_deficiencia_no_mercado_de_trabalho_um_panorama_positivo_para_uma_mudanca_necessaria

 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Mitos sobre a educação inclusiva


Mito: As escolas comuns da rede regular de ensino do país não estão preparadas para receber alunos com deficiência, Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD) e altas habilidades/superdotação.

As escolas se preparam para receber todos os alunos, conhecendo-os diretamente em suas diferenças, no cotidiano escolar. Cada aluno (e não apenas aqueles com deficiência, TGD e altas habilidades/ superdotação) é único. As escolas precisam considerar as diferenças de todos para que o argumento da falta de preparação para atender alguns alunos não signifique mais uma maneira de discriminar alguns alunos, diferenciando, restringindo, limitando, adaptando os conteúdos escolares como resultante dessa preparação. A preparação se resume em: ensino deve ser o mesmo para todos os alunos e a aprendizagem, diferente para cada um! Além disso, paralelamente à mudança de pensamento, muitos são os investimentos em acessibilidade, infra-estrutura e formação continuada de professores.

Mito: Escolas regulares que recebem alunos com deficiência têm seu desempenho piorado.

Receber alunos com deficiência nas escolas é o desafio de que as escolas regulares necessitam para praticar um ensino de melhor qualidade e também repensar a forma de avaliação adotada para todos os alunos. Os estudantes com deficiência denunciam as práticas excludentes de que a escola faz uso e que demonstram claramente a sua incapacidade de acolher a todos os alunos nas suas diferenças. Quando o professor torna a aula interessante para todos os seus alunos, cresce o aprendizado.

Mito: A escola comum pode negar matrícula a determinados alunos com deficiência, se não se sentir em condições de atendê-los.

Segundo a legislação brasileira, não se pode negar, suspender, procrastinar ou fazer cessar, sem justa causa, matrícula escolar de qualquer aluno, em escolas comuns, especialmente quando o motivo é a deficiência. Esclareça-se que a justa causa capaz de afastar a ocorrência de crime não pode ser o fato da escola não se sentir preparada para receber a pessoa com deficiência. A conduta descrita é tida como crime desde 1989 e a pena ao infrator pode variar de um a quatro anos de prisão, mais multa. A conduta também exclui a pessoa com deficiência do sistema educacional geral sob a alegação da deficiência ao não recebê-la por sentir-se despreparada, pois a causa da recusa é o fato de possuir o interessado uma deficiência, o que colide frontalmente com o disposto também na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, em seu artigo 24.

Mito: O direito à educação dos alunos com deficiência, que está prescrito e garantido pela Constituição Federal de 1988, é totalmente assegurado nas escolas especiais.

As escolas especiais, mesmo que reconhecidas pelo poder público competente, têm como finalidade o ensino especial, constituindo-se em uma modalidade complementar a todos os níveis de ensino, o que diverge da escolarização oferecida pela escola comum, não podendo, portanto, substituí-la. Dessa forma, se o aluno é mantido exclusivamente em uma escola especial, tem ferido o seu direito constitucional à educação.

Mito: Os pais/responsáveis de alunos com deficiência podem decidir matricular seus filhos apenas em escolas especiais ou transferi-los da escola regular para a especial.

Os pais de alunos com idade entre 4 e 17 anos, inclusive, não têm a possibilidade legal de optar entre a escola comum e a especial, diante da obrigatoriedade constitucional de escolarização, a qual só se efetiva em escolas comuns.

Mito: A Educação Especial é sinônimo de Atendimento Educacional Especializado (AEE).

O AEE é um dos serviços oferecidos pela Educação Especial. Como se pode observar da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, a Educação Especial tem uma atuação mais ampla na escola: a de orientar a organização de redes de apoio, a formação continuada, a identificação de recursos e serviços, o desenvolvimento de práticas colaborativas para o pleno desenvolvimento do aluno, entre outras ações.

Mito: O acesso de alunos com deficiência às escolas comuns, “desde que possível”, “desde que capazes de se adaptarem”, demonstra uma precaução, um cuidado que devemos tomar, quando fazemos uma “inclusão responsável”.

Estas condições impostas por algumas escolas retratam uma concepção antiga da deficiência, ainda de acordo com o modelo reabilitador, que tinha como foco a integração, e, não, como o trazido pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que trata a deficiência como um modelo social e com o foco na inclusão daquelas.

Mito: Os professores de escola comum só poderão aceitar em suas salas de aulas alunos com deficiência intelectual, física, visual, pessoas com surdez, entre outros caso tenham uma formação anterior, em que aprendam os conhecimentos relativos à Educação Especial.

Os professores de escola comum devem conhecer o que é relativo ao ensino dos conteúdos curriculares (Matemática, Língua Portuguesa e outros). Os conhecimentos relativos ao ensino especial são os que os professores de Educação Especial devem saber para ensinar os conteúdos próprios da Educação Especial, entre os quais orientação e mobilidade, uso de tecnologia assistiva, ensino de LIBRAS e de Português como 2ª língua dos surdos, entre outros.

Mito: Para conseguir acompanhar seus colegas na aprendizagem dos conteúdos curriculares, os alunos com deficiência devem frequentar aulas nas escolas especiais, no período oposto ao da escola comum onde estudam.

O aluno com deficiência matriculado nas turmas de ensino regular pode frequentar, na medida de suas necessidades, o AEE (oferecido na sua própria escola, preferencialmente, ou não). Vale destacar que o AEE não tem como finalidade fazer esse aluno “acompanhar a sua turma”, mas apoiá-lo nas necessidades que são inerentes à sua deficiência, objetivando o seu máximo desenvolvimento e aprendizado.

Mito: O Atendimento Educacional Especializado (AEE) é garantido e obrigatório para todos os alunos com deficiência.

O Atendimento Educacional Especializado deve ser garantido a todos os alunos com deficiência, mas não é obrigatório a todos eles. O AEE, que deve ser oferecido obrigatoriamente pelas redes de ensino, é facultativo para o aluno, pois deve levar em conta as suas necessidades educacionais de modo individual. A frequência ao AEE é um direito que o aluno poderá exercer ou não. Além disso, o AEE não se destina exclusivamente a alunos com deficiência. Seu público alvo inclui, ainda, alunos com transtornos globais de desenvolvimento e alunos com altas habilidades/superdotação.

Mito: O AEE pode ser exercido por psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e outros profissionais da área clínica.

O AEE é um serviço educacional realizado exclusivamente por professores especializados. Esses professores podem ter, na medida de suas necessidades, a contribuição dos profissionais responsáveis pelo atendimento clínico, ou de uma equipe multidisciplinar de profissionais. Mas o saber especializado do professor de Educação Especial não se confunde com outros saberes de natureza terapêutica, paramédica e nem com o saber do professor comum. Há que se distinguir o saber clínico do saber especializado e do saber escolar.

Mito: O professor de AEE define os conteúdos escolares e as práticas pedagógicas que os professores comuns adotarão em suas turmas para os alunos com deficiência.

A escolarização de todos os alunos de uma turma, inclusive dos alunos com deficiência que nela estão matriculados, é uma das atribuições da escola comum. O professor de AEE promove a acessibilidade desses alunos aos conteúdos escolares, trabalhando em parceria com os demais professores.

Mito: O professor de AEE oferece reforço escolar aos alunos com deficiência, para ajudá-los a superar dificuldades que encontram na assimilação de conteúdos curriculares.

Em nenhuma hipótese o AEE se confunde com qualquer atividade cujo fim é ensinar ao aluno com deficiência o que é da competência do ensino comum. Ainda há muitos professores que entendem equivocadamente que as atividades do professor de AEE nas salas de recursos multifuncionais são dedicadas ao reforço das atividades escolares.

Mito: O professor de AEE é o responsável pela avaliação do progresso escolar e pela promoção de alunos com deficiência, que estão incluídos em escolas comuns.

Compete aos professores da escola comum a avaliação escolar e a tomada de decisão sobre a promoção desse e dos demais alunos. Mas nada contra, se a professora do AEE pode ser chamada a opinar dentro do que é específico de seu trabalho, informando a evolução do aluno no AEE e contribuindo para que essa avaliação seja a mais justa e completa possível.

Mito: O AEE oferece apoio pedagógico aos alunos com dificuldades de aprendizagem, para ajudá-los em se processo de escolarização.

O AEE não atende alunos considerados com “dificuldades de aprendizagem”. A escolarização de qualquer aluno deve acontecer na sala de aula comum.

Mito: Os alunos com a mesma deficiência devem receber igual atendimento e em grupo.

Alunos com a mesma deficiência podem necessitar de atendimentos diferenciados, individualizados e/ou em grupos.

Mito: A educação inclusiva é voltada para alunos com deficiência.

O movimento da educação inclusiva não se restringe à inserção de alunos com deficiência no ensino regular. É um movimento muito mais amplo, que requer uma nova organização de escola que considere as diferenças de todos os alunos. A escola que aprende com as diferenças é aquela que se preocupa em oferecer o melhor do ensino e reconhece que todo aluno é capaz de aprender.

Mito: A formação de professores com base no conhecimento sobre as deficiências é o melhor caminho para preparar o professor de sala de aula.

O aluno não é marcado e definido por uma categorização. A convivência com os alunos é o melhor caminho para que o outro seja desvelado e reconhecido na medida em que se constróem relações entre professores e alunos (vínculos responsáveis por nossa constituição como seres que não se repetem e pela construção de identidades não fixadas).

Mito: O professor do ensino regular não escolheu educação especial na sua formação inicial, por isso ele não pode atuar com crianças com deficiência.

O professor do ensino regular deve ser formado para ensinar todas as crianças. A formação em educação especial, seja em cursos de formação continuada ou inicial, habilita o professor para atuar no atendimento educacional especializado.

Mito: Nas escolas comuns devem estar incluídos apenas os alunos com leves comprometimentos físicos e mentais, mas não os alunos com graves problemas de deficiência.

Todos os brasileiros, incondicionalmente, têm direito à educação, na faixa etária em que o ensino escolar é obrigatório. Não há nada que impeça os alunos de frequentarem as escolas comuns, em todas as etapas do ensino básico e no ensino de nível superior. Todos nós aprendemos com a experiência da diferença nas escolas!

Mito: Currículos adaptados são indicados para que alunos com deficiência sejam incluídos em turmas comuns de Ensino Fundamental.

A deficiência intelectual impede que os alunos construam ativamente o conhecimento escolar.

Quando a escola tem práticas de ensino que desafiam esses e os demais alunos a conquistar com esforço próprio, interesse e curiosidade o conhecimento, eles conseguem construir ativamente os conteúdos escolares, na medida da capacidade de cada um. Essa conquista de um “lugar de saber” implica em que os alunos com deficiência intelectual e os demais colegas de turma tenham assegurada a autonomia intelectual e não aprendam por “decoreba” ou qualquer outra forma de treinamento.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Agosto de 1941: Hitler foi denunciado por programa de extermínio de pessoas com deficiência física e intelectual


A matéria abaixo foi extraída do site Opera Mundi.


História: Há exatamente 71 anos, Hitler foi denunciado por programa de extermínio de deficientes físicos e intelectuais. Mortes representavam uma antecipação das câmaras de gás de Auschwitz

No dia 3 de agosto de 1941, um domingo, algumas semanas após Alemanha e União Soviética entrarem em guerra, o bispo de Münster, na Renânia, denuncia publicamente o assassinato de deficientes físicos e intelectuais pelos nazistas.

O monsenhor Clemens-August von Galen, de 68 anos, exclamava: “É uma doutrina tenebrosa aquela que busca justificar a morte de inocentes, que autoriza o extermínio daqueles que não são mais capazes de trabalhar, dos enfermos, daqueles que soçobraram na senilidade… Será que temos o direito de viver só enquanto pudermos ser produtivos?”.

No começo do século XX, parecia legítimo que os seres humanos mais frágeis desaparecessem e abrissem espaço a seres mais bem preparados para sobreviver, em nome da seleção natural. É desse modo que são editadas em determinados Estados leis que permitiam esterilizar pessoas dadas como fracas de espírito ou deficientes.

Em 14 de julho de 1933, Hitler, por sua vez, publica uma lei sobre a esterilização dos deficientes intelectuais. Protestos houve somente do clero. Um decreto datado de 1º de setembro de 1939, exatamente no dia da deflagração da Segunda Guerra Mundial, prescrevia não mais somente esterilizar mas também levar à morte os deficientes, os marginais e os que apresentavam tendência permanente para a depressão. O pretexto era de liberar os leitos hospitalares para os futuros feridos de guerra.

Hitler confia toda a operação a Karl Brandt, seu médico pessoal, e a Philip Bouhler, médico-chefe da chancelaria. Eles se instalam sob o nome de codificado “Aktion T4”. Os funcionários do T4 experimentam diferentes meios de extermínio, começando com o veneno e depois descobrindo o gás. Num primeiro momento, encerram suas vítimas num local fechado e injetam o gás do escapamento de um caminhão.

Muito rapidamente, os procedimentos são aperfeiçoados. Em janeiro de 1940, uma quinzena desses infelizes são conduzidos para uma falsa ducha de chuveiro e asfixiados com o monóxido de carbono. Os cadáveres são em seguida incinerados. Seus familiares são avisados por carta da morte acidental do parente e convidados a recuperar as cinzas. Era uma antecipação das câmaras de gás de Auschwitz.

Em torno de 70 a 100 mil deficientes seriam dessa maneira assassinados em menos de dois anos. Porém, malgrado todos os esforços da administração, o segredo seria descoberto. A inquietação vai crescendo. Até dentro do próprio exército cresce a preocupação quanto ao destino dos feridos de guerra. Pastores protestantes começam a reagir.

O papa Pio XII intervém na questão em 15 de dezembro de 1940, condenando firmemente a eutanásia. Por fim, em 9 de março de 1941, o bispo católico de Berlim, von Preysing, denuncia “mortes batizadas de eutanásia”. Joseph Goebbels, chefe da propaganda, convence Hitler de não determinar a execução do bispo para evitar um conflito aberto com os cristãos de Münster. Finalmente, três semanas após o golpe de efeito do monsenhor von Galen, em 24 de agosto de 1941, Hitler decide suspender a “Aktion T4”.

Os mais de cem funcionários do T4, contudo, não ficam sem funções. Algumas semanas mais tarde, Heinrich Himmler, ministro do Interior e chefe supremo da SS, usa de sua expertise para pôr de pé o plano de eliminação física dos judeus.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Mulheres com deficiência terão atendimento exclusivo em hospital


O Hospital‘Peróla Byington’ irá oferecer assistência ginecológica e psicológica. Atendimento será feito sempre no ultimo sábado do mês.

As mulheres que possuem algum tipo de deficiência física ouintelectual terão a partir deste sábado (28/07) um atendimento exclusivo e especial no hospital Pérola Byington, em São Paulo. O novo serviço oferece desde assistência ginecológica até acompanhamento com psicólogos e nutricionistas.

A estudante de Direito Edna Silva teve paralisia infantil e passou a maior parte da vida na cadeira de rodas. Aos 41 anos, é a primeira vez que vai ao ginecologista. “É difícil encontrar um ginecologista porque, nos postos de saúde, dão prioridade à gestante”, disse.

Já faz dois meses que ela está com um sangramento e conseguiu ser atendida no projeto Sábado sem Barreiras, dedicado a pessoas com deficiências físicas e mentais. O serviço foi inaugurado esta manhã pelo governador Geraldo Alckmin e pretende atender mil mulheres por ano.

As pacientes vão passar por consultas médicas e fazer exames como ultrassom, mamografia e papanicolau, usando equipamentos especiais. O atendimento será feito sempre no ultimo sábado do mês.

O fim de semana foi escolhido porque assim fica mais fácil para os parentes acompanharem o paciente. O foco não é tratar as deficiências, mas cuidar da mulher.

“Ela menstruou, ela teve vontade de ter relações, ela quis engravidar e, muitas vezes, isso não foi discutido, porque é uma forma de não-inclusão, porque, quando ela vem ao ginecologista, ela se liberta. Ela diz: ‘eu sou mulher como as outras’”, afirma Albertina Duarte Taquiute, coordenadora do Programa do Adolescente da Secretaria de Saúde e assessora da Organização Pan-americana de Saúde para Assuntos da Mulher.

O governo pretende ampliar o serviço, porque os exames periódicos são fundamentais para detectar doenças como câncer em seu estágio inicial, auxiliando o tratamento. “Pretendemos levar essa proposta para os demais serviços de saúde do governo. É um atendimento voltado à mulher com deficiência, com atendimento completo na área ginecológica, desde consulta com especialistas, exames, e, se precisar, cirurgia”, disse o governador paulista.

As consultas no programa Sábado Sem Barreiras serão sempre das 8h às 12h e devem ser agendadas pelo telefone (11) 3248-8123.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Lei de Cotas

A chamada Lei de Cotas (Lei 8.213 de 1991) completou nesta terça-feira 21 anos de sua sanção. Mesmo depois de mais de duas décadas em vigor, ainda existe muito preconceito sobre a capacidade produtiva da pessoa com deficiência. A avaliação é do secretário Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoas com Deficiência, Antônio José Ferreira. “Ainda temos muitos desafios. Os maiores são superar, ainda, os preconceitos e o desconhecimento que o empresário têm acerca das potencialidades e da capacidade da pessoa com deficiência”, disse à Agência Brasil.

Atualmente, existem cerca de 306 mil pessoas com deficiência formalmente empregadas no Brasil. Desse total, cerca de 223 mil foram contratadas beneficiadas pela Lei de Cotas. Ela prevê, no Artigo 93, que toda empresa com 100 ou mais funcionários deve destinar de 2% a 5% (dependendo do total de empregados) dos postos de trabalho a pessoas com alguma deficiência.

“Junto com o Ministério do Trabalho, estamos fazendo uma grande campanha de sensibilização dos empresários. Não indo só na questão de aplicar multa, mas também de conscientizar e de capacitar o empresariado. É mais fácil nós adaptarmos as empresas às pessoas, do que as pessoas às empresas”, destacou o secretário. A empresa que desrespeitar a Lei de Cotas e negar oportunidade de trabalho às pessoas com deficiência poderá pagar multa de R$ 1.617,12 a R$161.710,08.

De acordo com a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo, as 306 mil carteiras de Trabalho assinadas de pessoas com deficiência representam apenas 0,7% do total de empregos formais do país, onde há 46 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, das quais 29 milhões em idade economicamente ativa.

Segundo o órgão, se todas as empresas do país cumprissem a Lei de Cotas, mais de 900 mil pessoas com deficiência teriam que estar empregadas. “Hoje nós já temos avançado. O governo federal está colocando 150 mil vagas no Pronatec [Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego] a fim de qualificar as pessoas com deficiência para justamente acessar às vagas que a Lei de Cotas tem trazido”, disse Ferreira.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)


Confira carta de Esclarecimento à Sociedade sobre o TDAH, seu diagnóstico e tratamento

Brasília, 13 de Julho de 2012

Carta de Esclarecimento à Sociedade sobre o TDAH, seu diagnóstico e tratamento.

Recentemente, uma série de matérias sobre o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) tem sido veiculada pela mídia jornalística não especializada. Em boa parte dessas matérias, profissionais apresentados como especialistas em saúde e educação (embora seus currículos informem não terem publicações científicas sobre o assunto) transmitem opiniões pessoais como se fossem informações científicas.

Pior, suas opiniões não refletem os conhecimentos atuais sobre o transtorno, que é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde e sobre o qual constam centenas de publicações em bancos de dados (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/) descrevendo claramente as graves consequências nas esferas acadêmica, familiar, social e profissional. Tais opiniões equivocadas são nocivas para pacientes, familiares e para a população como um todo.

A afirmação de que o TDAH “não existe”, de que os medicamentos aprovados pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária para o tratamento desse transtorno são “perigosos” e tornam as crianças “obedientes” é, na melhor das hipóteses, expressão pública de ignorância em relação ao tema, investigado cientificamente de modo extenso por pesquisadores de todo o mundo, muitos deles brasileiros. Na pior das hipóteses, configura crime porque veicula informações erradas sobre tema de saúde pública. Incontáveis Associações Médicas ao redor do mundo já se posicionaram não deixando dúvidas sobre a validade do TDAH (vide posicionamento da Associação Médica Americana em Referências no final do texto).

Tais matérias induzem os leitores à falsa conclusão que há dúvidas não apenas quanto à existência do TDAH, como sobre os benefícios do tratamento medicamentoso. Obviamente, tais textos jamais citam qualquer artigo científico, nenhum dado de pesquisa, demonstrando os tais efeitos “perigosos” ou graves. E, numa prova incontestável da natureza parcial e enganosa, em desrespeito aos princípios básicos do jornalismo, deixam de citar centenas de artigos científicos que documentam fartamente os benefícios, a eficácia e a segurança dos medicamentos usados no tratamento do TDAH. Recentemente, um grande estudo publicado no mais importante jornal Inglês de Psiquiatria documentou que o metilfenidato é a medicação mais eficaz em Psiquiatria e uma das mais eficazes em toda a Medicina (vide em Referências no final do texto).

Os sintomas que caracterizam o TDAH não são comportamentos infantis comuns, meras variações da normalidade, que médicos, pais e professores querem “controlar”. Seria o mesmo que dizer que diabete é um mero aumento de açúcar no sangue, uma simples variação do normal observado na população. Noventa e cinco por cento das crianças e adolescentes não tem a intensidade e gravidade de sintomas que os portadores de TDAH, do mesmo modo que 90% dos adultos não têm níveis elevados de açúcar. Diagnósticos são frequentemente estabelecidos pela intensidade e gravidade. A lista é grande: hipertensão arterial, glaucoma, osteoporose, hipertireoidismo, etc. Todos eles, à semelhança do que ocorre no TDAH, cursam com graves consequências para o indivíduo. Proposições do tipo “quem não esquece alguma coisa de vez em quando?” ou “quem não responde impulsivamente de vez em quando?” são, além de superficiais, irrelevantes: todos os sintomas do TDAH ocorrem em frequência e intensidade não observada em indivíduos normais. O diagnóstico do TDAH é realizado através de entrevista clínica e há extensa literatura científica sobre a fidedignidade deste procedimento. A sugestão de que a ausência de exames complementares tornaria o diagnóstico “frágil” novamente reflete inacreditável desconhecimento de saúde mental: também não há exames para os diagnósticos de Depressão, Autismo, Transtorno do Pânico, Esquizofrenia, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Transtorno Bipolar, etc.

A comunidade científica Brasileira, aqui representada por mais de 20 associações e grupos de pesquisa, reitera que o TDAH pode ser diagnosticado de modo fidedigno e seu tratamento, se bem conduzido, tem grandes chances de diminuir os prejuízos que esses indivíduos apresentam ao longo da vida. Embora tratamentos não farmacológicos possam auxiliar bastante no manejo terapêutico do TDAH, todos os artigos científicos disponíveis indicam que o tratamento farmacológico é a primeira escolha para a maioria dos portadores.

Fornecer informações equivocadas e ocultar dados científicos bem documentados é dificultar ou retardar o acesso da população ao diagnóstico ou a tratamento, é a expressão de uma das mais perversas formas de discriminação social: a Psicofobia.

Referências

1. Diagnosis and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Larry S. Goldman, MD; Myron Genel, MD; Rebecca J. Bezman, MD; Priscilla J. Slanetz, MD, MPH; for the Council on Scientific Affairs, American Medical Association - JAMA. 1998;279(14):1100-1107

2. Putting the efficacy and general medicine medication into perspective: review of meta- analysis. Stefan Leucht, Sandra Hierl, Werner Kissling, Markus Dold and John M. Davis. British Journal of Psychiatry, 2012, 200:97-106

Entidades signatárias

1 - Associação Brasileira de Psiquiatria

2 - Associação Brasileira do Déficit de Atenção

3 – Sociedade Brasileira de Pediatria

4 – Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil

5 – Associação Brasileira de Neurologia, Psiquiatria Infantil e profissões afins

6 – Academia Brasileira de Neurologia

7 – Sociedade Brasileira de Neuropsicologia

8 – Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

9 – Sociedade Interdisciplinar de Neurociência Aplicada à Saúde e Educação

10 – Associação Brasileira de Dislexia

11 – Ambulatório dos Estudos de Aprendizagem do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Neurologia e Pediatria)

12 – DISAPRE – Laboratório de Pesquisa em Distúrbios da Aprendizagem e da Atenção – Faculdade de Ciências Médicas - Universidade de Campinas

13 – Laboratório de Investigações Neuropsicológicas – Universidade Federal de Minas Gerais

14 – Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento – Universidade Federal de Minas Gerais

15 - Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência (UPIA) da Universidade Federal do Estado de São Paulo (UNIFESP-EPM)

16 – Centro de Referência para Criança com TDAH Instituto de Pediatria e Puericultura Martagão Gesteira – Universidade Federal do Rio de Janeiro

17 – Ambulatório de Neuropsicologia Pediátrica do Serviço de Neurologia do Complexo Hospitalar Professor Edgar Santos da Universidade Federal da Bahia

18 – Ambulatório de Distúrbio de Aprendizagem da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo

19 – GEDA - Grupo de Estudos e Pesquisa do Déficit de Atenção da Universidade Federal do Rio de Janeiro

20 – NANI – Núcleo de Atendimento Neuropsicólogo Infantil – Universidade Federal do Estado de São Paulo

21 - Comunidade Aprender Criança – Instituto Glia

22 – Núcleo de Investigações da Impulsividade e da Atenção da Universidade Federal de Minas Gerais

23 – Centro de Orientação Escolar - Hospital da Criança Santo Antonio da Santa Casa de Porto Alegre

24 – Laboratório de Clínica Cognitiva do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia

25 - Programa de Déficit de Atenção/ Hiperatividade do Hospital de Clinicas de Porto Alegre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

26 – Serviço de Psiquiatria Infantil da Santa Casa do Rio de Janeiro

27 - Grupo de Pesquisa em Neurodesenvolvimento, escolaridade e aprendizagem – CNPq

28 - Ambulatório de Déficit de Atenção (AMBDA) da Universidade Federal de Minas Gerais

29 – Instituto ABCD

(Fonte: ABDA - Associação Brasileira do Déficit de Atenção)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Braille, por um ensino-aprendizado mais consistente e coerente


Na condição de professor do ensino regular, de familiar ou amigo de pessoa com deficiência visual, aprender o Braille se torna essencial para ampliar as possibilidades de interação comunicacional, tornando-os mais independentes no contato com a leitura, registros e expressão por meio da escrita.

O aprendizado do Braille surge, então, como um recurso facilitador que contribui efetivamente para a eliminação da barreira na comunicação escrita e lida por pessoas cegas. Muito embora seja indiscutível os benefícios trazidos pelo aprendizado desse método tátil, atualmente a crescente demanda por recursos tecnológicos e o uso de computadores equipados com leitores de tela e sintetizadores de voz, fez com que o Método Braille fosse visto como menos relevante, principalmente com o argumento de ser um sistema complexo e pouco difundido entre a sociedade em geral. Isso também deve a um ensino sem direcionamento adequado.

O fato é, que se existe um desconhecimento sobre o sistema Braille , deve-se investir esforços para que este código seja mais divulgado e passe a integrar o repertório de conhecimento de todas as pessoas. Na escola, por exemplo, o professor beneficiará o aluno cego ao propor atividades adaptadas em relevo, criando ambientes de aprendizagem que fomentem a equidade em relação aos resultados educativos de todos os alunos, com práticas que facilitem o acesso ao currículo comum. Em casa, o familiar ou amigo que convive com a pessoa cega será provocado a compartilhar das suas experiências e compreender suas produções, oferecendo-lhes oportunidade de contribuir, interagir e fazer as trocas necessárias. É através do incentivo familiar que a pessoa com deficiência visual se sentirá mais segura, pois este constitui o primeiro núcleo social de convívio, interações e aprendizados, seja no aspecto cognitivo, emocional e afetivo. No contexto social temos que o domínio do Braille será útil, por exemplo, no setor comercial de produtos ou serviços, nas relações estabelecidas com as pessoas e na quebra das barreiras que impedem uma plena comunicação e, destas, posso citar cardápios, rótulos, contratos, informativos, folders, placas, entre outros dispositivos que viabilizam o acesso e a permanência da pessoa nos espaços, consumindo informação e interagindo com as pessoas.

O Sistema Braille foi criado pelo francês Louis Braille, jovem cego que dedicou seus esforços pelo bem da humanidade. Nascido em 1809 nas proximidades de Paris, perdeu a visão ainda criança em decorrência de um acidente enquanto brincava na oficina de seu pai. Foi aluno do Instituto Real para Jovens Cegos, primeira escola para cegos no mundo, fundada no ano de 1784, na cidade de Paris, por Valentin Haüy. Louis Braille morreu, aos 43 anos sem que seu sistema fosse reconhecido oficialmente. A expansão e adoção do sistema Braille pelo mundo aconteceu de forma lenta e desordenada. Foi trazido para o Brasil pelo jovem José álvares de Azevedo em 1854, que aqui chegando incentivou a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin constant, localizado na cidade do Rio de Janeiro.

Como braillista e defensora da democratização do código Braille deixo o alerta de que o aprendizado do Braille precisa seguir a orientação de um profissional habilitado, já que demanda um conhecimento específico sobre as técnicas para uso e aplicação deste sistema em diversas situações. São diferentes os procedimentos, técnicas e etapas empregadas para ensinar uma criança cega ou um adulto que perdeu a visão. ainda temos que considerar as peculiaridades das construções simbólicas e conceituais por meios visuais ou táteis e como ocorre esse aprendizado. A leitura tátil, requer das pessoas cegas muito treinamento motor, perceptivo e sensorial. Uma boa percepção tátil é fundamental para identificação das diferentes disposições dos pontos Braille que representam as letras ou símbolos matemáticos, químicos, musicais e outros, existentes na escrita em tinta. As pessoas que enxergam quando aprendem o sistema Braille, muitas vezes, recorrem a desenhos do símbolo para memorizarem o formato de cada letra. Embora façam uso da visão para ler essas figuras coloridas, recheadas de efeitos visuais, esta não constitui a melhor estratégia trabalhada para a assimilação do código. A leitura de imagens serve como um apoio inicial, mas não como único recurso empregado. Assim como nem todo cego usuário de Braille domina as técnicas para o ensino do código, nem todo vidente possui condições para ensiná-lo de maneira a satisfazer Às necessidades do aprendiz. O aprendizado mecânico e sem instruções só reforça a superficialidade do emprego deste sistema em detrimento da qualidade.

Desse modo uma instrução má orientada quanto ao ensino do Braille estaria na contramão das tentativas para a sua democratização, pois supre uma necessidade imediata de aprendizado. Futuramente corremos o risco de que esse aprendizado não seja consolidado e caia no esquecimento ou, ainda, conserve vícios e erros, gerando prejuízos para o processo de inclusão. O fracasso proveniente de um ensino mau direcionado e sem critérios servirá sempre de justificativa para que as pessoas cegas ou com visão fiquem cada vez mais resistentes ao uso e aplicação do Braille no dia-a-dia como fator de inclusão social e acessibilidade. A demanda é crescente e aprender o Braille é uma ação urgente e necessária nos dias de hoje e não podemos deixar que essa conquista seja atropelada por imagens meramente ilustrativas. E nesse caso o aprendiz também é responsável por suas escolhas...

Luciane Maria Molina Barbosa


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Quem e quantas são as pessoas com deficiência no Brasil?

A matéria abaixo foi extraída do site Inclusive.


Por Vinicius Gaspar Garcia *

Responder a essa pergunta não é tarefa simples, trivial ou consensual, nem mesmo depois que o IBGE passou a incluir nos Censos Demográficos a temática da deficiência e incapacidade funcional. Isso ocorre por uma razão muito simples: variam os critérios para definição de quem são pessoas com deficiência no Censo e, por exemplo, para fazer jus as vagas reservadas no mercado de trabalho via “Lei de Cotas”.

Em poucas palavras temos, de um lado, critérios técnicos, clínicos e objetivos para definir o direito ou não de usufruir uma série de direitos; de outro, uma auto-declaração subjetiva sobre graus variados de dificuldades para determinadas ações.

De maneira geral, quando pensamos em pessoas com deficiência de imediato remetemos aos cadeirantes, cegos, pessoas com deficiência auditiva e/ou deficiência intelectual/cognitiva. Tal contingente de pessoas representa exatamente o mesmo universo apurado pelo IBGE no Censo Demográfico? Não, é preciso ter cautela e usar os dados com discernimento.

De maneira correta, pois o recenseador não poderia inquirir tecnicamente as pessoas sobre sua deficiência ou exigir laudo médico para sua comprovação, o IBGE solicita uma avaliação funcional sobre o grau de dificuldade das pessoas para andar/subir escadas, ouvir e enxergar, além de uma pergunta direta sobre a deficiência mental/intelectual. O entrevistado, assim como faz para outras variáveis como renda ou trabalho, responde se tem total, grande ou alguma dificuldade permanente para realizar tais ações (ou se não tem nenhuma dificuldade).

Houve uma pequena mudança, mas é possível compatibilizar os dados do Censo de 2000 e 2010 e apresentar a seguinte tabela:



No meu entendimento, tentando fazer um exercício para aproximar os dados do Censo daquele conjunto de pessoas com deficiência, digamos, “tradicionais”, é mais correto incluir nessa categoria apenas aqueles que declararam “total” ou “grande” incapacidade para andar, ouvir ou enxergar, além dos que disseram “sim” sobre a deficiência mental/intelectual. Dessa forma, excluímos desse grupo aqueles que disseram ter apenas “alguma dificuldade”, chamando-os de pessoas com “limitação funcional leve”.

Procedendo dessa forma, o número de pessoas com deficiência no Brasil teria variado de 7,0 milhões em 2000 para 12,7 milhões em 2010, representando 6,7% da população. Já o contingente de pessoas com limitação funcional foi de 17,2 milhões em 2000 para 32,8 milhões em 2010 (17,2% da população).

Importante: reparem que o governo, entidades, movimento social e mesmo pesquisadores, na grande maioria das vezes, _não _fazem esta distinção. Consideram-se “pessoas com deficiência” _todos_ que declararam qualquer nível de incapacidade: 24 milhões em 2000 (14,3% da população) para 45,6 milhões em 2010 (24,0% do total de brasileiros). Assim, ao lançar o programa Viver sem Limites, o Governo Federal fala em atender aos 45 milhões de brasileiros com deficiência; ao mesmo tempo que entidades e ONGs chamam atenção e alertam para o fato de que a deficiência atinge ¼ da população brasileira em 2010.

Me parece uma certa imprecisão, uma tentativa de “forçar o argumento”, tanto de um lado como de outro.

Estou dizendo com isso que a questão da deficiência é menos importante? Claro que não. Primeiro porque, mesmo com critérios mais restritivos, estamos falando de 12,7 milhões de pessoas com deficiência no Brasil (6,7% da população). Segundo, na verdade, não importa se somos cinco, dez ou 50 milhões, quando falamos em acessibilidade ou em sociedade inclusiva, falamos de todos, sem distinção.

Por último, reconhecemos hoje a importância em quantificar e identificar a realidade sócio-econômica dos milhões de pessoas com deficiência no Brasil, especialmente para o balizamento de políticas públicas. Mas o nosso horizonte deve ser um futuro em que não seja preciso categorizar os indivíduos, classificar a deficiência ou qualquer outro atributo pessoal, uma sociedade que seja, como diz o filósofo Vladimir Saflate, “indiferente às diferenças”, pautada pelo igualitarismo e justiça social.

* Diretor de Relações Institucionais do CVI-Brasil

Fonte: http://www.deficienteciente.com.br/