Ally e Ryan

Ally e Ryan

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Aumento do número de alunos com deficiência no ensino superior


O Ministério da Educação (MEC) informou por meio de seu site, que a quantidade de matrículas de pessoas com deficiência na educação superior aumentou 933,6% entre 2000 e 2010. Estudantes com deficiência passaram de 2.173 no começo do período para 20.287 em 2010 - 6.884 na rede pública e 13.403 na particular. O número de instituições de educação superior que atendem alunos com deficiência mais que duplicou no período, ao passar de 1.180 no fim do século passado para 2.378 em 2010. Destas, 1.948 contam com estrutura de acessibilidade para os estudantes.

De acordo com o MEC, no orçamento de 2013, o governo federal vai destinar R$ 11 milhões a universidades federais para adequação de espaços físicos e material didático a estudantes com deficiência, por meio do programa Incluir.

O Incluir tem como objetivo promover ações para eliminar barreiras físicas, pedagógicas e de comunicação, a fim de assegurar o acesso e a permanência de pessoas com deficiência nas instituições públicas de ensino superior. Até 2011, o programa foi executado por meio de chamadas públicas. Desde 2012, os recursos são repassados diretamente às universidades, por meio dos núcleos de acessibilidade. O valor destinado a cada uma é proporcional ao número de alunos.

Entre 2013 e 2014, o governo afirma que vai abrir 27 cursos de letras com habilitação em língua brasileira de sinais (libras) nas universidades federais, uma em cada unidade da Federação. Segundo o MEC, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) vai ofertar mais 12 cursos de educação bilíngue (português¿libras) a partir do próximo ano.

Para dar suporte de recursos humanos aos novos cursos nas universidades federais, será autorizada a abertura de 229 vagas de professores e 286 de técnicos administrativos. As ações fazem parte do eixo educação do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência - Viver sem Limite, que envolve diversos ministérios para promover a inclusão, autonomia e direitos das pessoas com deficiência.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Acessibilidade, quantas faces?

Descrição da imagem: figura retangular que juntando uma palavra em ingês (I) com o desenho de um coração e a palavra acessibilidade forma a frase: eu amo acessibilidade
 
 Pessoal, li o texto abaixo no site do meu amigo MAQ, http://www.bengalalegal.com/ , fiquei emocionado e decide compartilhar com todos:
 
04/10/2012 - Ethel Rosenfeld.
Para Gem, que viveu com dignidade sua vida, meu respeito, meu amor e minha eterna saudade.
Este texto não trata só de acessibilidade arquitetônica. O foco deste trabalho está na sociedade e nas suas diferenças. E, para acessibilizar diversos tipos de mentes, levando-as à união entre as diferenças, uso a FORÇA da palavra SOL.
SOL é luz, calor e força.
LUZ é claridade, transparência e visibilidade.
CALOR é amizade e amor.
FORÇA é vontade, determinação e ousadia.
Acessibilidade?
O conceito mais comum de acessibilidade está intimamente ligado às rampas, aos degraus, às escadas, às cadeiras de rodas, às bengalas brancas e às muletas. Lembre-se que a cadeira de rodas, a bengala branca, a muleta, o cão-guia e outros são equipamentos auxiliares e que não são mais importantes do que as pessoas que os utilizam. Enxergue a pessoa, o ser humano e não seu equipamento auxiliar.
Desde sempre, desde que o mundo é mundo, sempre existiram pessoas com deficiência. Por que só agora, nas últimas três ou quatro décadas, é que se começa a ouvir falar e discutir acessibilidade? E o que é acessibilidade?
Vamos esquecer por alguns minutos o conceito de acessibilidade ligado às barreiras arquitetônicas e às pessoas com deficiência, pois essa é fácil de resolver: basta bom senso, bons profissionais na área da arquitetura e engenharia. Basta ter percepção e entender que as cidades, países, o mundo em geral têm arquitetura diferente, cultura, pessoas, animais, vegetais, todos e todas com as características de seus habitats e que devemos aceitar e respeitar essas diferenças.
Todos nós, naturalmente, circulamos pelas ruas e, para que as pessoas com algum tipo de deficiência, limitação, também tenham o direito de ir e vir, garantindo sua vida em sociedade, é indispensável que as cidades sejam bem planejadas, de forma acolhedora, que não se tenha apenas uma arquitetura de fachada, bonitinha e fria.
Vamos procurar as diversas faces dessa misteriosa e assustadora palavra, vamos enfrentar de frente e tirar a máscara que esconde a verdadeira cara, o verdadeiro sentido dessa palavra tão falada: acessibilidade!
Crianças descalças, dormindo pelas ruas, homens e mulheres sujos, famintos implorando por uma moeda, jovens se drogando e se prostituindo. Que mundo é esse? Que mundo é esse onde apenas uns têm casa, cama, roupa limpa, água quente para o banho, comida à mesa, abraços, carinhos, amor? Que mundo é esse onde apenas uns têm escolas, hospitais, clínicas, médicos, remédios, conforto e proteção? Que mundo é esse tão desigual, tão injusto, tão desumano? Que mundo é esse que, com toda essa miséria nos rodeando, nós ainda nos preocupamos com rampas? Rampas? Rampas?
Vamos gritar e acordar a justiça, vamos mostrar a todos que todos somos iguais em direitos e deveres, precisamos acreditar nisso profundamente e lutar para que isso se torne realidade. Vamos construir uma rampa que garanta a todos, todos os direitos básicos e fundamentais a uma vida com dignidade. Vamos construir uma rampa que leve todas as crianças às escolas, que permita que todos tenham educação, saúde e cama quente para dormir. Vamos construir a rampa da igualdade, do amor e da justiça. Vamos nos comprometer com a vida.
O Poder do Comprometimento.
Enquanto não estivermos compromissados haverá hesitação, possibilidade de recuar e, sempre, a ineficácia. Em relação a todos os atos de iniciativa (e de criação), existe uma verdade elementar, cuja ignorância mata inúmeros planos e ideias esplêndidas: no momento em que, definitivamente, nos compromissarmos, a providência divina também se põe em movimento. E aí, todos os tipos de coisas ocorrem para nos ajudar, coisas que, em outras circunstâncias, nunca teriam ocorrido; todo um fluir de acontecimentos surge a nosso favor, como resultado da decisão, todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda material, que nenhum homem jamais poderia ter sonhado encontrar em seu caminho.
Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém em si mesma o poder, o gênio e a magia. (Goethe).
Coragem!
Quando, aos 13 anos, fiquei cega, meus pais precisaram encontrar coragem para enfrentar, junto comigo, uma nova forma de viver. Minha mãe, com sua limitação de saúde, não podia acompanhar-me pelas ruas, mas, dentro de nossa casa, ela me apoiava com muito amor, carinho e me transmitia força, encorajando-me para a vida.
Meu pai, um herói anônimo, encorajou-se e foi conhecer o mundo das pessoas cegas. Por vários longos meses, frequentou o Instituto Benjamim Constant, escola especializada na educação e reabilitação de pessoas cegas e de baixa visão. Papai passava horas no Instituto, acompanhando, vivenciando as diferentes atividades lá oferecidas; estava aprendendo a viver entre pessoas cegas, aprendendo a acreditar no potencial e nas capacidades dessas pessoas; queria acreditar que eu poderia continuar meus estudos, minha vida e alcançar independência.
Com meus pais, irmãos, familiares em geral e amigos, comecei a superar meus medos e fui à luta. Sim, tive que ter muita coragem para enfrentar esse novo mundo, sem luz, sem cores e tão vazio. Ou melhor, aparentemente tão vazio.
E por que essa sensação de vazio? Porque a visão é o órgão dos sentidos responsável por 80% das informações que chegam ao cérebro, os 20% restantes são percebidos pela audição, olfato, paladar e tato. Assim, para que eu percebesse as coisas, o mundo, eu precisava tocá-las, senti-las, ouvi-las, sentir seu cheiro e gosto, quando antes, bastava olhar e ver.
Aos 17 anos, descobri que eu era diferente dos meus novos amigos cegos do Instituto. Eu, apesar de cega como eles, tinha tudo que eles não tinham, eu tinha meu lar, minha família, amigos, vida social e eles eram pessoas sem chances de uma vida comum, eles estudavam e moravam no Instituto, muitos não tinham família, muitos tinham sido colocados e abandonados por suas famílias carentes que tiveram que se separar de seus filhos queridos, pelas precárias condições de suas vidas e de suas cidades. Com essa percepção, fiz o juramento de dedicar minha vida às pessoas cegas. E assim comecei meu movimento pela igualdade, pelo direito à vida.
No início de minha caminhada, as pessoas com deficiência, com qualquer tipo de deficiência, eram chamadas de excepcionais. Antes de ficar cega, a palavra excepcional significava algo muito bom, excelente! E comecei a me perguntar: por que excepcional? Será que ser cega é tão bom assim? Com os anos, essa palavra foi mudando até que chegou à seguinte expressão: pessoa portadora de deficiência. Continuei a me perguntar: por que portadora?
O que eu estava portando? Lembrei de Jesus Cristo na cruz e senti um grande peso nessa expressão. Continuei questionando o termo e um dia, junto com outras pessoas com deficiência, concluímos que a melhor forma seria simplesmente dizer: pessoa com deficiência. Nossa preocupação com a palavra, com o termo ou expressão, era apenas para enfatizar que somos pessoas, não importando nossas características individuais, o que importa é que somos pessoas.
Quando pensávamos ter atingido nossa maioridade, que estávamos finalmente sendo vistos como pessoas, aparecem nossos protetores e começam a nos chamar de pessoas especiais. Novamente, o peso da cruz de Jesus Cristo caiu na minha cabeça e, para não ser injusta, comecei a tentar entender o significado de 'pessoas especiais'. E entendi: especiais na medida em que somos pessoas que precisamos ser mais corajosas, mais ousadas, mais determinadas e mais perseverantes. A necessidade de termos que provar a cada dia, a cada momento, que somos pessoas capazes, com direitos e deveres como qualquer outra pessoa, é realmente uma tarefa árdua que exige muita paciência e muita ousadia.
Durante 27 anos, trabalhei diretamente com crianças, jovens e adultos com deficiência visual. Ajudei na educação, na reabilitação e, ao final desses longos 27 anos, percebi que não bastava só educar, tentar incluir a pessoa com deficiência, percebi que havia um vazio que precisava ser preenchido para que a pessoa com deficiência alcançasse seu objetivo, que é o mesmo de todas as pessoas: o direito ao trabalho, ao lazer, à vida.
Resolvi, então, que não mais trabalharia só com as pessoas com deficiência e passei a trabalhar com a sociedade, essa sociedade que separa as pessoas em ilhas, formando guetos, promovendo a exclusão e não entendendo que só existe uma sociedade, onde todos devemos ser respeitados como seres humanos, como iguais, apesar de sermos todos muito diferentes!
Uma sociedade justa deve entender que todos somos responsáveis e todos podemos fazer alguma coisa que torne mais fácil o caminho de alguém, lembrando sempre que o convívio humano é mais importante que o próprio viver! Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir, em relação uns aos outros, com espírito de fraternidade. (Artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos - ONU, 1948).
Será que somos todos iguais?
Todos são iguais perante a lei. Todos têm os mesmos deveres e direitos, porém nem todos são reconhecidos e respeitados por suas diferenças. As pessoas não são necessariamente iguais assim como as pessoas com a mesma deficiência também não são iguais. Cada pessoa é única no seu modo de pensar, sentir e querer. Devemos entender e respeitar as diferenças, aceitando as pessoas como elas são, sem querer modificá-las.
E quem é a pessoa com deficiência?
Antes de responder e talvez complementando a pergunta, acho importante refletir: por que deficiente? O que é ser deficiente? É ser menos eficiente? É não ser suficiente?
Talvez não sejam perguntas fáceis de serem respondidas, dificilmente as respostas serão iguais e, seja qual for o caminho que escolhermos para construir nossas respostas, o importante é lembrar que deficiência não é doença, pode ser e, muitas vezes, é sequela de uma doença.
A deficiência não modifica o ser na sua essência, apenas o limita em alguns aspectos. A pessoa com deficiência deve ser vista e respeitada como qualquer pessoa, com direitos e deveres, com vontades e sonhos, desejos de participar da vida, de alcançar sua autonomia, de prover seu sustento e de sua família e, como qualquer outra pessoa, alcançar uma vida plena, digna, convivendo em sociedade.
Quem me conhece, sabe que gosto muito de contar histórias, as histórias que tive que criar para garantir meus direitos, como pessoa cega que não aceita a exclusão, que não aceita o não e que precisa brigar para ter o simples direito de viver. Lembrando de um episódio ocorrido no Teatro Municipal, resolvi ilustrar esse trabalho com partes de um texto que escrevi para ser discutido num evento sobre acessibilidade, que aconteceu em Brasília, no ano de 2006. Esse e outros episódios mostram como nossa atuação na sociedade, como nossas experiências cotidianas sejam, talvez, a forma mais objetiva de se acessibilizar pessoas, atitudes e comportamentos.
O texto abaixo propõe uma reflexão sobre o que chamamos de barreiras atitudinais. Todos os obstáculos encontrados por Gem, meu cão-guia por quase treze anos, se observarmos bem, apesar de aparentemente serem chamados de barreiras arquitetônicas não passam de barreiras culturais, de barreiras atitudinais.
Gem, um jeito novo de viver!
Meu nome é Gem.
...
Ethel chegou à Fundação, onde nasci e fui treinado, no dia 13 de outubro de 1997. Nos dois primeiros dias, ela só caminhava com o Mike, nosso instrutor. Ele estava avaliando seu jeito de ser, a maneira de caminhar, seus hábitos e preferências. Afinal de contas, ele precisava encontrar o par perfeito para mim. Foi legal! Mike acertou! Foi amor ao primeiro toque!
...
Posso dizer que no Rio, meu trabalho é dobrado. Nunca vi tantos obstáculos nas calçadas e ruas como aqui. Quando não são os buracos, são os tais fradinhos, uns postes pequenos que não iluminam nada e ficam no meio da calçada. Ainda não entendi direito, mas parece que esses fradinhos servem para impedir que as pessoas estacionem os carros nas calçadas. Engraçado, achava que bastava proibir e multar quem fizesse isso, e não ficar enchendo meu caminho de obstáculos.
Ficar desviando de tudo isso não é brincadeira. Sem contar com os tais orelhões que são fininhos embaixo e enormes lá em cima. Dizem que é um telefone, mas onde já se viu falar ao telefone no meio de tanto barulho? Desviar de um postezinho é moleza, agora desviar de um poste disfarçado, são outros 500...
Confesso que, durante o meu treinamento, não passei por tantas dificuldades. Sem querer falar mal da cidade de vocês, só digo que, na minha terra natal, os E.U.A, pessoas com deficiência visual são tratadas com mais respeito, e meus colegas não têm tanto trabalho para guiar seus donos.
O pior é que todos esses buracos e fradinhos não são os únicos problemas que eu enfrento. De vez em quando aparece alguém e nos impede de entrar em algum lugar. Não sei não, mas acho que, quando acontece isso, tem alguma coisa a ver comigo. A cena é sempre a mesma: a Ethel fica lá, falando, falando e mostrando uns papéis para a pessoa que não quer deixá-la entrar, enquanto eu fico sentado, esperando o que vai acontecer.
Antigamente, a gente quase nunca entrava nos lugares onde acontecia essa cena. De uns tempos pra cá, parece que a situação mudou um pouco. Acho que os papéis da Ethel passaram a servir para alguma coisa. Tanto passaram a servir que até a um concerto de música eu já assisti, e no tal Teatro Municipal, considerado o mais importante da cidade. A primeira vez que fomos lá foi aquela cena de sempre, tivemos que voltar prá casa sem ouvir uma nota sequer da Orquestra Sinfônica Brasileira.
Não sei muito bem o que aconteceu depois e quais papéis novos que ela conseguiu, só sei que na segunda vez em que fomos ao teatro, foi uma festa. Tinha câmera de televisão e máquina fotográfica para tudo quanto é lado. Um monte de pessoas querendo falar com a Ethel e tirar nosso retrato. Virei uma estrela!
Imagine só os meus colegas vendo isso, hein? Na minha terra, não tem disso não. Ninguém fica perdendo tempo em tirar foto ou filmar cachorros que guiam cegos, uma coisa tão comum por lá. Pelo menos, pude assistir ao concerto sossegado, se bem que muita gente não parava de olhar pra mim. Sei lá, mas me deu a impressão que estavam esperando eu latir. Onde já se viu? Latir no meio de um concerto, ouvindo a Nona de Beethoven? O que essa gente estava pensando?
Bom, já falei demais e vou ficando por aqui. Apesar de tudo, não tenho muito do que reclamar da minha vida com a Ethel. Ela é uma pessoa legal, que gosta muito de mim. Gosto muito dela também. Só espero que os obstáculos, que hoje dificultam meu trabalho, diminuam nos próximos anos. Depois disso, quando já estiver velhinho e cansado, lá pelos meus onze, doze anos, vou pedir minha aposentadoria porque, como já disse, ninguém é de ferro.
O que me deixa feliz é perceber que tenho ajudado a Ethel a ser mais independente. Sempre que ela precisa sair, estou pronto para ir com ela. O melhor da história é que ela deu aquele jeitinho novamente e conseguiu uma autorização para eu me aposentar aqui, no Rio, bem juntinho dela. Não sei como seria se ela não tivesse conseguido essa autorização, mas eu já a ouvi dizendo: na companhia de Gem, um belo labrador amarelo, enfrento com mais tranquilidade e segurança, não só meus medos, mas a própria cegueira, vencendo barreiras físicas e emocionais antes intransponíveis. Mais do que um guia, tenho em Gem um companheiro, um grande amigo, quase um filho. Entre nós existe uma sintonia perfeita. Ele e eu somos um todo e, como um todo, indivisível."
Gem morreu em 30 de dezembro de 2008, com doze anos e oito meses, deixando uma saudade doce, meio amarga que alimenta meu coração. Deixou um grande legado à nação brasileira; com Gem, o Brasil começa a conhecer o relevante trabalho do cão-guia e, definitivamente, é implantada em nosso país a cultura sobre esses maravilhosos, iluminados seres de quatro patas, que emprestam seus olhos e doam seus corações com humildade e carinho.
Quem é o responsável?
Fala-se muito da falta de acessibilidade, mas, afinal, de quem é essa culpa, responsabilidade? Nossa? Do governo? Da sociedade? De quem? Do preconceito?
Para entendermos melhor, analisemos uma definição de preconceito: preconceito é o juízo antecipado sem fundamento razoável, opinião formada sem reflexão. (Dicionário da Língua Portuguesa. SOUZA, S.E.).
Essa é a definição que mais me agrada sobre preconceito. O desconhecimento leva ao preconceito que, por sua vez, cria barreiras aparentemente intransponíveis. Por isso, nós, pessoas com deficiência, também temos papel relevante na construção dessa nova consciência coletiva. Nós podemos e devemos colaborar, com nosso conhecimento e nossas experiências para, juntos com toda a sociedade, eliminarmos as barreiras que nos afastam de uma vida plena.
Agora, você já sabe o que é acessibilidade? Qual é o verdadeiro conceito de acessibilidade? Quantas faces têm a acessibilidade?
O conceito de acessibilidade varia de acordo com o ângulo que se enfoca. Mas isso não é o mais importante! O importante é que continuemos a construir rampas, rampas que levem todas as pessoas, sem distinção, sem se preocuparem com a cor da pele de cada um, a religião, as características físicas, o nível sóciocultural; rampas que ajudem a construir uma sociedade justa, rampas que tenham como lema a SOLIDARIEDADE, a FRATERNIDADE e a COMPREENSÃO.
Do livro: Celebrando a Diversidade. Pessoas com Deficiência e Direito à Inclusão. Edição 2010.
Organização: Flavia Boni Licht e Nubia Silveira.
Apoio: Planeta Educação - em especial, Elisete Oliveira Santos Baruel e Érika de Souza Bueno.
Capítulo III, Acessibilidade – Quantas Faces?
Ethel Rosenfeld.
Site: ethelrosenfeld.com.br
Educadora, especialista em educação de pessoas com deficiência visual; Coordenadora técnica do programa Atenção, Professor!/TV Educativa, Consultora do Núcleo de Deficiência Visual da telenovela América/Rede Globo de Comunicações.

100 mil acessos

 
Descrição da imagem: figura retangular com minha imagem falando no microfone proferindo uma palestra, no fundo a projeção de um slide escrito: Inclusão da Pessoa com Deficiência no mercado de trabalho.


Meus amigos e amigas, hoje é um dia especial para o blog, rompemos a barreira dos cem mil acessos e naturalmente quero agradecer a todos pelas visitas e leituras. Quando coloquei o blog no ar, meu primeiro objetivo foi demonstrar que pessoas com deficiência podem trabalhar, estudar, casar e fazer qualquer outra ação quando seus direitos básicos são respeitados. Depois, conforme fui me envolvendo com inclusão escolar ele foi tomando outro rumo e deslanchou.

Fico feliz pelo sucesso e prometo continuar usando as redes sociais para promover inclusão.

Obrigado.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Educação Proibida.Legendas em português do filme completo


Onde está a Deficiência?

Descrição da imagem: uma foto em formato retangular, onde apareço (sentado na cadeira de rodas)  ao lado da minha esposa, numa sala ampla com um sofá ao fundo, uma mesa atrás e outra na frente, estamos sorrindo


05/10/2012 - Claudia Sanchez.
Este artigo busca aportar elementos de reflexão em torno do tema da diversidade, da deficiência e da inclusão desde a ótica da atuação na sociedade das pessoas em situação de deficiência, de forma que contribuam na geração de ações para melhorar sua qualidade de vida, sempre e quando isso seja permitido pelo entorno, pelo meio ambiente. Para seu desenvolvimento, o artigo parte do conceito de pessoa em situação de deficiência, destaca a transcendência dos fatores ambientais e estabelece relações com a ideia de diversidade.
Pessoa em Situação de Deficiência.
Quando se fala da pessoa em situação de deficiência, está aí envolvida a relação entre a pessoa e o meio; e, como em qualquer relação, a responsabilidade por possibilitar o seu estabelecimento é tanto da pessoa como do entorno físico ou natural, tanto aquele construído pelo homem - as cidades - ou o ambiente social, também edificado pelo ser humano, que inclui as atitudes, as convicções pessoais e sociais e, finalmente, políticas e leis. Em suma, o espaço no qual uma pessoa desenvolve sua vida.
A concepção que atribui a responsabilidade da construção da deficiência à sociedade, o modelo social da deficiência, foi alcançado depois de muitos anos, como superação do modelo individual da deficiência, que colocava a condição deficiente apenas na pessoa, como uma característica intrínseca do indivíduo. A noção do efeito causado pelo entorno na edificação da deficiência e por consequência, na atuação de todas as pessoas – inclusive, da pessoa em situação de deficiência na sociedade - evoluiu bastante nas últimas décadas. Até porque as barreiras e os obstáculos ambientais e culturais não são permanentes; podem e devem ser alterados, sempre e quando os diversos segmentos da sociedade aceitem sua própria responsabilidade e a necessidade da mudança.
A Classificação Internacional de Funcionalidade, Deficiência e Saúde (CIF), utiliza o termo deficiência “para denominar um fenômeno multidimensional, resultado da interação das pessoas com seu entorno físico e social”. A existência dessa interação, como ação que se exerce de forma recíproca entre dois agentes, faz com que o próprio conceito de deficiência incorpore, de forma mais explícita ou mais implícita, a dimensão social como sendo chave, tornando incabível, então, admitir as situações de deficiência sem levar em consideração tal dimensão.
A deficiência se entende como geradora de processos, em virtude dos quais não chegam a ser adquiridos, se deterioram ou desaparecem determinados vínculos ou relações que as pessoas mantém e que lhes permite dar resposta a suas necessidades, desenvolver-se pessoalmente, participar da comunidade e obter e manter uma qualidade de vida satisfatória. Ou seja, a deficiência como uma construção entre o indivíduo e a sociedade, suscetível de ser superada, sempre e quando os processos sociais assim o permitam.
Em oposição aos enfoques da deficiência em termos de normalidade/anormalidade, estudados por diversos autores, o sociólogo Guillermo Páramo Rocha afirma que “a diversidade trata de uma dimensão fundamental que promove a assimilação das pessoas na sociedade de acordo com as condições de cada um, independentemente das peculiaridades diversas que caracterizam os indivíduos”.
Definições da CIF.
As definições estabelecidas pela CIF, no contexto da saúde, são as seguintes:
·         Funções corporais: as funções fisiológicas dos sistemas corporais (incluindo as funções psicológicas).
·         Estruturas corporais: as partes anatômicas do corpo, tais como os órgãos, os membros e seus componentes.
·         Deficiências: os problemas nas funções ou nas estruturas corporais, tais como um desvio significativo ou uma perda.
·         Atividade: a realização de uma tarefa ou ação por parte de um indivíduo.
·         Participação: o ato de envolver-se em uma situação vital.
·         Limitações na atividade: as dificuldades que um indivíduo pode experimentar no desempenho/realização de atividades.
·         Restrições na participação: os problemas que um indivíduo pode experimentar para envolver-se em uma situação vital.
·         Fatores ambientais: o ambiente físico, social e atitudinal no qual as pessoas vivem.
·         Fatores contextuais: a essência integral tanto da vida de um indivíduo como do seu estilo de vida.
Estão aqui incluídos os fatores ambientais e pessoais que podem ter efeitos na pessoa, na condição de sua saúde e nos estados ‘relacionados com a saúde’ dessa mesma pessoa. Nossa cultura tende a estigmatizar o diferente, a marginalizá-lo, a excluí-lo, ao invés de valorizá-lo, aceitá-lo e assimilá-lo como valor que tem a qualidade de enriquecer os grupos humanos. É a partir de sua diversidade que os membros de uma sociedade podem fazer sua contribuição à comunidade para construir uma sociedade inclusiva.
A falta de resposta às necessidades das pessoas em situação de deficiência faz com que a exclusão se torne social e economicamente intolerável, particularmente em países em vias de desenvolvimento, com o desperdício de talentos, de habilidades potenciais e deixando de lado uma porcentagem considerável de cidadãos com possibilidades reais de participar ativamente na sociedade.
O contrário disso, a resposta a essas necessidades, permitiria chegar a uma sociedade inclusiva, ou sociedade para TODOS, conforme o enfoque da Resolução 45/91 da Organização das Nações Unidas (ONU), assinada durante sua Assembleia Geral em dezembro de 1990.
A CIF, aprovada em 2001 e desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foi e segue sendo fundamental para a compreensão dos conceitos de funcionalidade e deficiência:
·         ao apresentar a deficiência como um processo interativo e evolutivo, na qual é necessário levar em conta a condição de saúde e os fatores contextuais, tanto ambientais como pessoais, que podem resultar limitantes para a realização de atividades e para a participação/funcionalidade das pessoas no meio social;
·         ao defender que tanto o entorno físico como o social são fatores decisivos na deficiência e as imperfeições de projetos são causa de limitações e redução de oportunidades.
A prevalência de limitações permanentes nas funções ou nas estruturas corporais, bem como a perda de habilidades em decorrência do envelhecimento, que se evidenciam nas estatísticas leva a considerar a importância e a responsabilidade que têm os urbanistas, projetistas e construtores do meio físico na busca de propostas, alternativas e soluções de edificações seguras, cômodas e confortáveis, que garantam uma melhor qualidade de vida à população em geral e permitam uma real inclusão aos grupos vulneráveis marginalizados como consequência de projetos excludentes.
Funcionalidade humana e entorno.
A funcionalidade humana é concebida pela CIF em três dimensões: biológica, psicológica e social. O termo FUNCIONALIDADE abrange funções e estruturas corporais, atividades e participação, e indica os fatores positivos da interação entre um indivíduo e seus diversos fatores contextuais.
É a restrição de tal inter-relação que impõe limites ao desempenho e à possibilidade das pessoas em situação de deficiência de se expressar produtivamente e de atingir uma melhor qualidade de vida. Quando não existe a adequada relação entre a condição de deficiência e os fatores ambientais e pessoais, surge a exclusão devido ao entorno, entorno que impede a participação ou o acesso.
A exclusão devida ao entorno - ou meio ambiente excludente - tem gerado respostas dos arquitetos, as quais têm evoluído desde a eliminação de barreiras até a concepção de novos paradigmas de projeto, como o da acessibilidade, que permite, em qualquer espaço interno ou externo, o fácil deslocamento da população em geral e o uso de forma confiável e livre de riscos dos serviços ali instalados, permitindo que as pessoas se aproximem, entrem, usem e saiam desses ambientes em condições de segurança e com a maior autonomia e conforto possíveis.
Esse meio ambiente acessível inclui, além das edificações e dos espaços urbanos públicos e privados, as relações interpessoais e as atitudes individuais e coletivas. Os fatores que fazem um ambiente ser produtor de exclusão são criados pelo ser humano - ou seja, parte da nossa cultura – sendo, portanto, reversíveis ou modificáveis. E, na medida em que o entorno excludente evolua para um entorno inclusivo, esse se torna gerador de qualidade de vida, ‘habilitador’ para as pessoas em situação de deficiência.
Também o conceito de qualidade de vida passa a se estruturar e a se fortalecer num contexto cada vez mais consciente da importância do entorno na vida das pessoas. Possivelmente, na atualidade, o entendimento da inclusão se encontra na confluência das ideias da não exclusão e aquela da acessibilidade universal (ou desenho universal, desenho inclusivo, desenho para todos), que tem como objetivo beneficiar a todos, tornando o meio ambiente mais franqueado para o maior número de pessoas e situações, entendendo e respeitando a diversidade de identidades, necessidades e capacidades de todos e de cada um.
Tanto a CIF como o desenho universal, ou acessibilidade universal, reconhecem que o meio ambiente físico possui a responsabilidade no desempenho dos seres humanos e admitem que as pessoas sem deficiência também sofrem as consequências e restrições de um entorno excludente.
O caminho na direção de uma sociedade na qual todos tenhamos as mesmas possibilidades deve começar por assumir o fato de que somos todos diferentes – maravilhosamente diferentes. Baixos. Altos. Fracos. Fortes. Corpulentos. Jovens. Velhos. E não importa se estás apaixonado, engessado ou se tens uma deficiência. Que tal se o design e a arquitetura fossem tão variados e excitantes como as pessoas para quem foram pensados?
Sociedade inclusiva e Ética da Diversidade.
A partir do princípio da inclusão se pretende um mundo e uma sociedade onde todas as pessoas tenham lugar e os mesmos direitos. No entanto, essa sociedade não é formada por seres uniformes, moldados por um mesmo padrão.
Atuar no âmbito da inclusão exige o compromisso com a chamada "ética da diversidade", que parte da premissa do direito à diferença, na qual todos os indivíduos e coletivos possuem atributos distintos e, assim, podem aportar seus valores para a construção dessa sociedade inclusiva que se almeja, aproveitando ao máximo as capacidades dos grupos heterogêneos: com esse objetivo, cada uma das pessoas é valorizada pelo que é e por suas potencialidades, independente de sua idade, sexo, raça, etnia, habilidade, etc.
Em uma sociedade inclusiva, as relações que as pessoas mantêm – e que lhes permite dar resposta às suas necessidades, desenvolver-se pessoalmente, participar na comunidade, obter e manter uma qualidade de vida satisfatória – estão determinadas pela capacidade ou possibilidade de exercer seus direitos e, em particular, seus direitos sociais, tais como o direito ao trabalho, à moradia, à cultura, à educação, à saúde, entre outros.
O conceito de qualidade de vida, como resultante da interação da pessoa com os fatores ambientais, leva em consideração os aspectos subjetivos, valores, preferências e satisfação num contexto social, econômico e político. A qualidade de vida deve estar baseada no conceito de acessibilidade e desenho universal como condição que deve atingir o entorno, os processos, os bens, os produtos e os serviços, assim como os objetos ou instrumentos, ferramentas e dispositivos para serem compreensíveis e utilizáveis por todas as pessoas em condições de segurança e conforto, da forma mais autônoma possível.
O que se busca é um mundo e uma sociedade onde todas as pessoas tenham os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Um mundo e uma sociedade onde se respeitem as diferenças e se ofereçam oportunidades de participação e construção inclusivas, que permitam a expressão e o livre desenvolvimento das potencialidades sem nenhum tipo de restrições pessoais nem ambientais para que seja possível atingir uma plena funcionalidade humana.


Bibliografia.
·         CASADO, D. (1991): Panorámica de la discapacidad. Barcelona, INTRESS.
·         CASADO, D. (1995): Ante la discapacidad. Glosas iberoamericanas. Buenos Aires, Lumen. UNIVERSIDAD NACIONAL. Maestría Discapacidad e Inclusión Social. Discapacidad e Inclusión Social. Reflexiones desde la Universidad Nacional de Colombia. Febrero de 2005.
·         FANTOVA, F. (1990): Evaluación de programas de intervención en el tiempo libre con personas con minusvalía en el Reino Unido, Italia y Francia. Elementos para un marco teórico y descripción sistemática de una selección de programas.
·         - Exclusión e inclusión social: una aproximación desde el ámbito de la discapacidad. Tercer Congreso Internacional de Discapacidad. Inclusión: oportunidades para todo. 2006.
·         NACIONES UNIDAS (1988): Programa de acción mundial para las personas con discapacidad.
·         Madrid, RPPAPM (Real Patronato de Prevención y de Atención a Personas con Minusvalía).
·         OMS (Organización Mundial de la Salud) (1983): Clasificación internacional de deficiencias discapacidades y minusvalías. Madrid, INSERSO. OMS – OPS. Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales de España., 2001. Clasificación Internacional del Funcionamiento, de la Discapacidad y de la Salud.
Do livro: Celebrando a Diversidade. Pessoas com Deficiência e Direito à Inclusão.
Edição 2010.
Organização: Flavia Boni Licht e Nubia Silveira.
Apoio: Planeta Educação - em especial, Elisete Oliveira Santos Baruel e Érika de Souza Bueno.
Capítulo III - Onde está a Deficiência?
Claudia Sanchez (Bogotá).
- arquiteta, presidente do Comitê Técnico sobre Acessibilidade das Pessoas ao Meio Físico do Instituto Colombiano de Normas Técnicas; integrante da equipe de consultores internacionais da AyA Arquitetura e Acessibilidade.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Olha como foi, meu filho!


30/09/2012 - Lívia Maria Villela de Mello Motta.

Jucilene, amiga de muitos anos, com a qual venho compartilhando muitas experiências e histórias, grande parte delas ligadas à audiodescrição, está grávida. E como toda gestante em seu pré-natal, foi fazer seu segundo ultrassom. Desde o começo da gravidez, que ela já vinha comentando que seria muito legal que eu fosse junto para fazer a audiodescrição do exame. “Nossa”, pensei, “preciso me preparar para isso…” E fui pesquisar na internet o que revelam os exames de ultrassom nas diversas semanas de gestação, tentando aprender a terminologia e conhecer as imagens para ganhar familiaridade com o tema.
Não consegui acompanhá-la no primeiro, mas neste, lá estava eu no meio dos dois, papai e mamãe, olhos grudados no monitor, tentando traduzir em palavras as imagens acinzentadas que iam sendo exibidas à medida que a médica, a Dra. Clarissa, passava o aparelho sobre a barriga besuntada de gel de Jucilene.
Comentei: "Ju, o que eu estou vendo agora não é exatamente o contorno do bebê, mas algumas bolhas de ar que se movimentam lentamente, parecendo flutuar."
Dra Clarissa foi explicando, com objetividade, cada imagem que aparecia no monitor e eu ia complementando com mais detalhes descritivos que pudessem dar a Jucilene e Sandro a possibilidade de construção da imagem mental do bebezinho, confortavelmente aninhado na barriga da mamãe. E todas as partes de seu corpinho flexionado foram sendo exibidas: a coluna vertebral curvada, o rostinho de perfil já com o nariz e boca delineados, os dedinhos das mãos fechados e um deles esticado como se estivesse a apontar, os órgãos do aparelho digestivo e urinário, os órgãos genitais que a Dra Clarissa descreveu como o casco de uma tartaruga, o coraçãozinho pulsando, os ossinhos dos braços e das pernas, o cérebro com canais finos compondo a massa encefálica.
Jucilene contou para Dra Clarissa o que é audiodescrição e sobre sua importância para as pessoas com deficiência visual. A médica explicou que já traduz as imagens mostradas no monitor para suas pacientes que enxergam, pois é mesmo difícil entender aquelas imagens ainda sem contornos definidos que não lembram formas humanas. Para as mamães com deficiência visual, mais alguns detalhes descritivos poderão fazer toda a diferença. Jucilene confirma isso em seu depoimento:
"Sou uma mamãe ansiosa por sentir em meus braços o frágil corpinho desse bebê que sinto a cada dia crescer e fortalecer dentro de mim. Este não é o primeiro filho, mas devo dizer que cada filho é único, cada gravidez tem suas particularidades. Me lembro como se fosse hoje ao fazer o primeiro ultrassom do Gianluca, que hoje tem 8 anos. Foi um momento mágico, saber que estava tudo bem, ouvir o pulsar do seu coraçãozinho. Mas confesso que seria bem interessante se tivesse um pouco mais de detalhes a cada exame. É fato que hoje temos muito mais recursos ao nosso alcance, pois se antes para gravar levávamos fita K7, imaginem o tamanho da evolução em levar hoje um DVD.
Agora que podemos usufruir deste maravilhoso recurso que é a audiodescrição, busco sempre fazer com que as pessoas me detalhem, contem o que estão vendo, mesmo que elas não façam a menor ideia num primeiro momento do que seja o recurso e sua importância para nós, pessoas com deficiência visual.
Neste período de minha gravidez, tenho conhecido muitas mamães na mesma situação que eu, que esperam ansiosas para dar a luz a mais um ser para este planeta. A única diferença é que elas enxergam e os papais também. O papai Sandro tem me acompanhado em todas as etapas desta gestação. Por isso, achei bem justo e válido convidar a nossa querida amiga para descrever este exame para nós. Transformar em palavras as imagens que ficam tão distantes aos nossos olhos. Eu ainda posso sentir o pesar da barriga, os chutes deste molequinho que se vira prá cá e prá lá dentro do meu útero. Quis tornar mais próximo do papai tudo o que acontece aqui dentro."
"Só posso dizer que mesmo ainda com os contornos cinzentos, foi uma experiência muito rica e diferente. Tenho muita sorte de ter ao meu lado pessoas tão especiais que dão ainda mais cor a este momento que para mim tem sido muito importante. Por isso, se você mamãe com deficiência visual for fazer estes exames de imagem, peça mais detalhes aos médicos. Explore sua imaginação e tenho certeza de que será o máximo. A audiodescrição não acontece apenas em teatros, cinemas ou em qualquer outro programa cultural, mas sim em tudo aquilo que não tiver palavras, mas que tenha importância para você. Faz parte do nosso dia-a-dia, afinal dizem que o mundo é visual."
O papai Sandro completa: "meus sentimentos no momento da audiodescrição foi de poder prestar mais atenção às informações técnicas passadas pela médica. Eu acho que o homem só tem mesmo noção quando pega o filho nos braços e começa a ouvir sua manha, seu choro e sua risada. Acredito que essa sensação dos primeiros 9 meses de gestação é única e somente a mulher consegue sentir e participar 100% desse momento e de suas sensações. Mas para mim isso não tira minha alegria e minha responsabilidade de participar desse momento. Acho que o homem tem que prever o que a mãe está sentindo e tentar ser o mais presente, carinhoso e atencioso do que nunca."
E essa tradução do visual para o verbal não restringe-se a futuras mamães com deficiência visual, mas estende-se também a pais que queiram acompanhar o pré-natal e o nascimento de seus bebês, a pacientes que são atendidos em hospitais ou consultórios, a pessoas que vão fazer exames em laboratórios, ou que são atendidas em clínicas de reabilitação e outros locais na área da saúde. Médicos, dentistas, fisioterapeutas e outros profissionais da saúde podem e devem introduzir mais informações descritivas em seus atendimentos a pessoas com deficiência visual, o que certamente irá informar e complementar o entendimento sobre o ambiente, instrumentos e procedimentos, baixando, com isso, a ansiedade e colaborando para um atendimento com mais qualidade, comunicação e interação. Uma atitude respeitosa que demonstra a preocupação com acessibilidade e inclusão.