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Aos 32 anos, Débora Araújo é também
educadora e atriz
Nas fábulas criadas por Débora Araújo
Seabra de Moura, que resultaram em sua estreia na literatura com o
infantil Débora Conta Histórias (Alfaguara), vivem um passarinho de
asa quebrada, uma galinha surda, um sapo que não sabia nadar, um gato e um
coelho preto, um cachorro e um papagaio que não se davam e um pato gay.
Algumas dessas histórias remetem a cenas concretas que a autora presenciou na
infância e adolescência. Outras foram inventadas. Juntas, ajudam a contar a
história da própria Débora e do ambiente em que cresceu – ainda que, ela diz,
não tenha sido essa a sua intenção.
“Usei animais para mostrar como eles
se sentem na própria pele”, explica a autora. Para ela, as histórias mostram
exatamente o que ali está escrito. Em Passarinho de Asa Quebrada Também
Voa, por exemplo, ela fala sobre um pássaro que depois de quebrar a asa não
consegue acompanhar o bando, que questiona se o amigo não estaria mais seguro
se ficasse numa gaiola. A garota que mora na fazenda onde Débora situa suas
fábulas entra em ação e pede aos passarinhos que aceitem o jeito dele, já que
ele é capaz de chegar no mesmo lugar, mas um pouco depois. Resultado: eles
ficam envergonhados pela proposta que fizeram e alguns passam a voar mais
atrás, fazendo companhia para o amigo de uma asa só. “Quis mostrar que tem
que incluir”, comenta.
Nos seus 32 anos, Débora passou,
firme, por poucas e boas e sabe o valor de uma boa amizade e de ser aceita
num grupo. Ela nasceu com síndrome de Down numa época em que seus portadores
eram conhecidos pejorativamente como mongoloides. Foi rejeitada, e depois
amada. Fez parte da primeira geração estimulada precocemente. Estudou em
escola regular. Em alguns momentos, foi discriminada e excluída, mas nunca
abaixou a cabeça. Conquistou o respeito, bons amigos e seu espaço na
sociedade. Sua determinação a levou ao curso de magistério, e ela se tornou a
primeira brasileira com a síndrome a se formar na profissão. Tudo em seu
ritmo, com suas próprias pernas, o empurrão da família, o olhar sempre
adiante e disposição para realizar novos sonhos.
Na ficção ou na vida real, o que
Débora nos conta é uma história de aceitação e de inclusão. Seu livro não
traz simples fábulas com uma moral no final. É diferente. Bonito e gracioso.
É a expressão do que ela sente na própria pele, para usar suas palavras, e
mesmo que ela não consiga simbolizar isso é a expressão de sua postura diante
da vida.
Débora Conta Histórias, com
ilustrações de Bruna Assis Brasil, tem tudo para ser adotado em escolas e os
convites para que a autora participe de feiras e eventos literários já estão
chegando. É o começo de uma nova carreira, que ela terá de conciliar com sua
rotina profissional. Há nove anos, é professora auxiliar na Escola Doméstica,
em Natal. “É uma experiência riquíssima para mim”, diz, sobre seu trabalho.
Hoje, acompanha crianças entre seis e sete anos – são seus alunos mais velhos
–, mas já teve turmas de diversas faixas etárias. “Gostei mais de trabalhar
com crianças de três e quatro anos, mas não faço diferença.” Não faz mesmo,
de nada. É firme em seus princípios e não tolera injustiça e discriminação.
Quando soube que dois amigos de sua
mãe eram um casal, disse a eles que ficava feliz, mas que tinham de estar
preparados porque poderiam sofrer preconceito. A homenagem ao casal está no
livro, em O Pato Que Não Queria Namorar Com a Pata.
A obra foi escrita
despretensiosamente, às escondidas. Foi um presente de Natal de Débora aos
pais. A versão em sulfite e espiral circulou pela festa da família até chegar
às mãos de um amigo, que se ofereceu em levar o volume para a Saraiva, que
editava suas obras de Direito. Dias depois veio a resposta negativa. Foi
feita uma nova edição caseira mais profissional que a apostila, mas a
advogada Margarida já estava convencida de que valia a pena lutar por mais
essa causa da filha.
Este não foi o primeiro livro escrito
por Débora. Margarida comenta que todos os portadores de síndrome de Down,
quando chegam a uma maturidade, querem contar sua história. “Débora fez isso
e seu relato ficou restrito à nossa família. Mas este é diferente.” Depois de
muito relutar, perguntou se um amigo escritor não daria uma olhada e, se
gostasse, se não mandaria para sua editora. O livro chegou então até Roberto
Feith, presidente do grupo Objetiva, que topou a edição no mesmo dia. “O que
me chamou atenção foi o encanto da história contada por Débora e o exemplo de
valor que ela personifica na forma de viver”, diz Feith, agora que os 3.500
exemplares da primeira tiragem estão nas livrarias. Uma grande festa de
lançamento está marcada para o dia 5 de setembro, em Natal, e Débora,
farrista como se apresenta, está animadíssima com os preparativos.
O amigo que deu o pontapé inicial na
edição prefere ficar no anonimato. E o primeiro livro publicado de Débora vem
com o endosso de João Ubaldo Ribeiro, prêmio Camões e cronista
do Caderno 2. “Raramente me emocionei tanto quanto ao ler pela primeira
vez as histórias criadas por Débora”, escreve.
Ela já trabalha num novo livro, que
tratará de sua experiência profissional. No entanto, não tem grandes
aspirações literárias. Prefere ler histórias para seus alunos do que
inventá-las na hora. Mas tem aspirações artísticas. Em casa, sempre teve
contato com literatura, música erudita e outras formas de arte. Mas foi com o
teatro que encontrou a melhor forma de se expressar. Para voltar aos palcos,
depende da reabertura do Centro Experimental de Formação e Pesquisa Teatral.
É sua nova bandeira.
DÉBORA CONTA HISTÓRIAS
Autora: Débora Araújo Seabra de Moura
Editora: Alfaguara (32 págs., R$ 34,90)
TRECHOS
Passarinho Com Asa Quebrada Também
Voa
"Um dia desses, a menina Sandra
foi passear pela fazenda e encontrou um passarinho perdido.
Ele estava com uma asa quebrada e
gemia muito. Então, ela pegou o passarinho, levou-o com carinho para casa e
fez um curativo em sua asa. Quando o passarinho se curou, ficou voando com
uma asa só. A menina Sandra ficou triste quando ele foi embora, mas ela sabia
que o passarinho tinha o direito de se libertar para fazer parte da natureza,
cuidar da sua vida.
Só que o passarinho gostou da
fazenda, da menina Sandra e dos seus amigos. Ele sentiu saudades e
voltou."
O Pato Que Não Queria Namorar Com a
Pata
”Um pato gostava de namorar outro
pato. Ele gostava dele, por isso, ele era discriminado pelos outros animais,
pois existe a lei dos patos na fazenda.
Os pais do pato reagiram e falaram:
- Meu filho, por que você está
namorando um pato e não uma pata?
Aí ele falou:
- Eu decidi namorar outro pato.
Então, os pais dos patos decidiram
fazer o seminário Novos Arranjos Familiares dos Patos."
Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo |
Meu nome é Ari Vieira, sou especializado em educação para pessoas com deficiência pela PUCSP. Quero ajudar os docentes a debater o tema inclusão das pessoas com deficiência e/ou mobilidade reduzida nas escolas. O blog será também uma importante ferramenta de consulta para quem for implantar a temática da inclusão na mobilidade urbana.
Ally e Ryan
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Professora potiguar faz sua estreia na literatura com fábulas de inclusão
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Inclusão Radical – SIM!
Por
Alexandre Mapurunga
A inclusão escolar das pessoas com deficiência intelectual e
autistas tem sido motivo das maiores controvérsias desde que o Governo Federal,
através do Ministério da Educação, assumiu a Educação Inclusiva como
perspectiva a nortear a Política de Educação Especial. Recentemente, sob a
alegação de que o Governo Federal quer acabar com as escolas especiais, a
Federação das Apaes de São Paulo iniciou nas redes sociais a campanha: “Não à
inclusão radical! Sim às escolas especiais!”.
Duas
questões são bastante preocupantes na iniciativa. A primeira refere-se à
declaração de que o Governo quer fechar as escolas especiais; a segunda vem do
chocante clamor por menos inclusão. O Decreto Presidencial 7.611/2011 foi um
dos primeiros a compor o “Plano Viver sem Limite” permitindo, dentre outras
coisas, a distribuição dos recursos do Fundeb na educação especial, inclusive
para “instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins
lucrativos, com atuação exclusiva na educação especial, conveniadas com o Poder
Executivo competente”. A função do Governo é, portanto , quando necessário,
conveniar com Organizações Privadas regulando serviço a ser prestado. Isso já
era possível, mas foi oportunamente reafirmado no Decreto para que não restasse
dúvida. Então, de onde vem a afirmação de que o Governo quer fechar as “escolas
especiais” tendo em vista que os mais recentes documentos são editados
permitindo a transferência de recursos?
A
verdade é que há uma discussão sobre o papel das chamadas organizações
especializadas e a complementariedade do Atendimento Educacional Especializado
e também sobre onde deve ser a prioridade de investimento dos recursos
públicos. Nesse contexto, é preciso reconhecer que, pela ausência histórica de
políticas públicas, as famílias tiveram que arregaçar as mangas para fazer uma
tarefa que seria obrigação do Estado. Pioneirismo que foi importante para
romper com a invisibilidade e para garantir atenção para as pessoas com
deficiência intelectual durante décadas. No entanto, esse movimento não pode se
cristalizar favorecendo a acomodação do Estado. Foi e continua sendo obrigação
do Estado garantir Educação para pessoas autistas e com deficiência
intelectual.
Vem
à tona então a segunda questão: “Não à inclusão radical”. A inclusão é um dos
princípios fundamentais dos direitos humanos. É também meta político-social de
quase todos os governos que são minimamente comprometidos com uma agenda global
de desenvolvimento. Inclusão significa mais igualdade de oportunidades, mais
desenvolvimento para os que foram historicamente excluídos. É adequar e fazer
chegar a pobres, negros, pessoas com deficiência, LGBT e outros grupos em
desvantagem social, as políticas públicas que geralmente só atingem uma parte
mais privilegiada da população. É romper com práticas estabelecidas e construir
um ciclo de aprimoramento das políticas públicas. O imperativo “Não à inclusão
radical” estampado em um banner no Facebook, ou mesmo qualquer variante que
implique em uma mensagem que pode ser entendida como um pedido por “menos
inclusão”, “inclusão só pra uns”, “inclusão seletiva” ou até “inclusão mais
lenta!” é chocante por desconhecer a universalidade dos direitos humanos.
As
perguntas que ficam são: menos inclusão para quem? Quem desmerece a inclusão?
Quão letárgica ou moderada deve ser a inclusão? Constantemente são denunciadas
a falta de condições, a falta de capacitação dos professores, a persistente
recusa e sistemática exclusão das pessoas com autismo e deficiência intelectual
da rede regular de ensino, realidade que mostra que é preciso aprofundar
(radicalizar) os processos de inclusão, antes do contrário, cobrando que seja
garantido o investimento contínuo e as regulamentações para as transformações
que forem necessárias.
Em
2008, o Brasil ratificou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com
Deficiência (CDPD) que foi aprovada com quórum qualificado em dois turnos no
Senado e na Câmara, assim obtendo status de Emenda Constitucional. No seu
artigo 24, a CDPD reconhece o direito das pessoas com deficiência à educação, que
deve ser efetivado sem discriminação e com base na igualdade de oportunidades,
num sistema educacional inclusivo em todos os níveis, bem como através do
aprendizado ao longo de toda a vida. A mensagem da Convenção que foi cravada em
nossa Constituição e assinada por representantes de toda sociedade é clara:
mais inclusão.
Qualquer
que seja o Governo, a agenda de Estado deve ser ampliar a inclusão das pessoas
com deficiência no sistema regular ensino. Isso é também compromisso
internacional assumido com a ratificação da Convenção, do qual o Brasil deve
prestar contas dos avanços obtidos. Ironicamente, a despeito do Decreto
7.611/2011 e da disposição do Governo Federal em apoiar as organizações
filantrópicas, a declaração de que se é contra um princípio fundamental da CDPD
– a inclusão - coloca a declarante em choque de interesse com o Estado
Brasileiro e com sua obrigação de implementar a Convenção.
De
acordo com artigo 4, o Estado e as autoridades públicas que o representam em
todas as instâncias devem abster-se de participar e apoiar qualquer ato ou
prática incompatível a Convenção, bem como assegurar que as instituições atuem
em conformidade. Nada mais justo do que a sustentabilidade das organizações
filantrópicas, mas para garantir financiamento público o Governo deve assegurar
que os recursos sejam aplicados da maneira mais inclusiva possível.
Alexandre Mapurunga
Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas com Autismo (Abraça)
http://abraca.autismobrasil.org
Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas com Autismo (Abraça)
http://abraca.autismobrasil.org
Skype: amapurunga +55(85)9760.3180 (tim)
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Dicas para desenvolver habilidade de conversação avançada em crianças com autismo
Ensinar uma criança autista a
fazer perguntas e declarações é o primeiro passo para que elas desenvolvam suas
habilidades para iniciar e manter uma conversa, além de trocar de temas durante
uma mesma conversa e até resgatar o interesse da outra pessoa durante a mesma
conversa. Estas são consideradas habilidades avançadas de conversação, e podem
ser exercitadas por pais, familiares, amigos, professores e terapeutas.
O
primeiro passo é ensinar à criança que uma conversa é marcada pela ida e volta
de falas: ao perguntar ou declarar algo, portanto, ela deve entender que haverá
uma resposta verbal da outra pessoa, mesmo que seja para dizer “Não sei”. Da
mesma forma, é preciso mostrar a ela que as outras pessoas esperam respostas
verbais durante uma conversa. Isso pode ser ensinado por meio de exercícios
práticos, desenhos ou objetos, como fantoches ou bonecos.
É
importante também explicar à criança o valor das conversas para o
desenvolvimento das relações afetivas e sociais. E, acima de tudo, a criança
com autismo deve ter oportunidade de praticar a conversação com o maior número
de pessoas, para que entre em contato com opiniões e reações diferentes. Os
comportamentos agressivos ou relutantes que algumas crianças apresentam diante
de pessoas novas podem ser amenizados com a prática social.
Uma
conversa é feita também de sinais não-verbais, e isso também deve ser ensinado
à criança. Mostrar a ela que muitas pessoas costumam ficar inquietas ou olhar
ao redor quando não estão interessadas em uma conversa é uma boa maneira de
treinar o resgate da conversa. Pode-se, por exemplo, ensinar a ela que nessas
situações é possível fazer uma pergunta para que a pessoa volte sua atenção à
conversa.
Texto
escrito por Silvana Schultze, do blog meunomenai. Baseado no artigo “Conversational
development for autismo”, disponível no
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Uma lei sob ameaça
LINAMARA RIZZO BATTISTELLA
É decepcionante que ainda haja quem tente flexibilizar a Lei de Cotas com ações que perpetuariam a exclusão de pessoas com deficiência
Nos últimos 12 meses, apenas 9.000 pessoas com deficiência foram empregadas formalmente no país.
O número é pífio para um país que comemora 22 anos de vigência da chamada Lei de Cotas, que determina que as empresas com cem funcionários ou mais devem reservar de 2% a 5% de suas vagas para pessoas com deficiência.
A promoção da inclusão é urgente. Em 2010, havia aproximadamente 44 milhões de empregos formais ativos no Brasil, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Destes, apenas 306 mil eram preenchidos por pessoas com deficiência como decorrência da Lei de Cotas, o que equivale a 0,7% do total. Se todas as empresas cumprissem a lei, o Brasil teria hoje mais de 900 mil pessoas com deficiência empregadas.
Por outro lado, dados do IBGE mostram que, também em 2010, existiam 3,8 milhões de pessoas com deficiência ocupadas, independentemente da Lei de Cotas, a maior parte no mercado informal.
Esses números não significam o fracasso de uma política pública. Ao contrário, nos impelem a identificar os motivos que retardam a obtenção dos resultados esperados e celebrar políticas afirmativas que avançam no sentido de vencer resistências.
Entre essas resistências, uma das mais frequentes é a ideia de que não existiria no mercado um número grande de pessoas com deficiência capacitadas para o trabalho, seja por baixa escolaridade ou por falta de experiência profissional.
Os números do IBGE desmentem essas justificativas. Em 2010, 2,8 milhões de pessoas com deficiência possuíam ensino superior completo, incluindo mestrado e doutorado, o que seria mais do que suficiente para suprir as vagas criadas pela Lei de Cotas. Por sua vez, a falta de experiência deriva de décadas de uma prática excludente, em que as portas das empresas se fechavam sistematicamente a qualquer tentativa de ingresso dessa população.
Muito decepcionante é constatar que parte do setor econômico ainda despende tempo e energia tentando flexibilizar a Lei de Cotas, propondo substituir as contratações pela oferta de cursos de capacitação, compensação financeira para entidades do terceiro setor e outras mazelas que perpetuam a exclusão.
Recentemente, essas mudanças foram propostas no projeto de lei nº 112, de autoria do senador José Sarney (PMDB-AP), felizmente retirado da pauta do Congresso.
Agora, as mesmas ideias voltam repaginadas em artigos do projeto do Estatuto da Pessoa com Deficiência, também em tramitação no Legislativo federal.
O Estado de São Paulo reconhece que a inclusão gera oportunidades em diferentes dimensões e incentiva o ingresso de pessoas com deficiência no mercado. O Via Rápida Emprego, por exemplo, disponibiliza vagas e oferece gratuitamente cursos básicos de qualificação profissional de acordo com as demandas regionais. Já o Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência (Padef) proporciona a obtenção e a manutenção do emprego.
A população não pode aceitar que setores tentem alterar uma lei que só agora começa a dar frutos. Ainda não vencemos a partida contra o preconceito, mas a Lei de Cotas é a melhor estratégia de que dispomos. Em time que ainda está empatando não se mexe, mas o que realmente buscamos é a vitória da inclusão e participação.
LINAMARA RIZZO BATTISTELLA é médica fisiatra, professora da USP e secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo
sexta-feira, 26 de julho de 2013
quinta-feira, 25 de julho de 2013
12 coisas para ensinar a seus filhos sobre crianças com deficiência
Amanda, sentada num banco de parque, gritando, com os braços para o alto. Foto de Paula Moreira
O melhor presente que eu poderia ganhar nesse dia das mães vem de outras mães e pais. Ensinem seus filhos a ver a deficiência da minha filha como algo natural. Isso pode ser um presente pra você e para o seu filho também.
Infelizmente, como a autora do artigo abaixo, cresci numa sociedade em que as pessoas com deficiência ainda ficavam presas em casa ou em instituições. As poucas crianças com que tive contato eram como ETs e meus pais nunca falaram sobre esse assunto comigo.
Hoje sou mãe da Amanda, de 8 anos, que tem síndrome de Down.
Felizmente o mundo está mudando e se tornando um lugar para todos. Aproveite essa oportunidade e fale mais com o seu filho sobre o coleguinha com deficiência da escola dele, aproxime-se e estimule a amizade deles. Você vai ver que todo mundo sai ganhando com isso.
Patricia Almeida
Inclusive – Inclusão e Cidadania
12 coisas para ensinar a seus filhos sobre crianças com deficiência
Eu cresci sem conhecer nenhuma outra criança com deficiência além do Adam, um visitante frequente do resort ao qual nossas famílias iam todos os verões. Ele tinha deficiência intelectual. As crianças zombavam dele. Fico envergonhada de admitir que eu zombei também; meus pais não faziam ideia. Eles eram pais maravilhosos, mas nunca pensaram em ter uma conversa comigo sobre crianças com deficiência.
E, então, eu tive meu filho Max; ele teve um AVC no nascimento que levou à paralisia cerebral. De repente, eu tinha uma criança para quem outras crianças olhavam e cochichavam a respeito. E eu desejei tanto que seus pais falassem com elas sobre crianças com deficiência.
Já que ninguém recebe um “manual de instrução sobre paternidade”, algumas vezes, pais e mães não sabem muito o que dizer. Eu entendo perfeitamente; se eu não tivesse um filho com deficiência, eu também me sentiria meio perdida. Então, eu procurei mães de crianças com autismo, paralisia cerebral, síndrome de Down e ocorrências genéticas para ouvir o que elas gostariam que os pais e mães ensinassem a seus filhos sobre os nossos filhos. Considere como um guia, não a bíblia!
1) Pra começar, não tenha pena de mim
“Sim, algumas vezes, eu tenho um trabalhão — mas minha vida não é nenhuma tragédia. Meu filho é um menino brilhante, engraçado e incrível que me traz muita alegria e que me enlouquece às vezes. Você sabe, como qualquer criança. Se você tiver pena de mim, seu filho vai ter também. Aja como você agiria perto de qualquer outro pai ou mãe. Aja como você agiria perto de qualquer criança.”
— Ellen Seidman, do blog “Love That Max”; mãe do Max, que tem paralisia cerebral
2) Ensine seus filhos a não sentir pena dos nossos
“Quando a Darsie vê crianças (e adultos!) olhando e encarando, ela fica incomodada. Minha filha não se sente mal por ser quem ela é. Ela não se importa com o aparelho em seu pé. Ela não tem pena de si mesma. Ela é uma ótima garota que adora tudo, de cavalos a livros. Ela é uma criança que quer ser tratada como qualquer outra criança—independente dela mancar. Nossa família celebra as diferenças ao invés de lamentá-las, então nós te convidamos a fazer o mesmo.”
— Shannon Wells, do blog “Cerebral Palsy Baby”; mãe da Darsie, que tem paralisia cerebral
3) Use o que eles tem em comum
“Vai chegar uma hora em que o seu filhinho vai começar a te fazer perguntas sobre por que a cor de uma pessoa é aquela, ou por que aquele homem é tão grande, ou aquela moça é tão pequena. Quando você estiver explicando a ele que todas as pessoas são diferentes e que nós não somos todos feitos do mesmo jeito, mencione pessoas com deficiências. Mas tenha o cuidado de falar sobre as similaridades também—que uma criança na cadeira de rodas também gosta de ouvir música, e ver TV, e de se divertir, e de fazer amigos. Ensine aos seus filhos que as crianças com deficiência são mais parecidas com eles do que são diferentes.”
— Michelle, do blog “Big Blueberry Eyes”; mãe da Kayla, que tem Síndrome de Down
4) Ensine as crianças a entender que há várias formas de se expressar
“Meu filho Bejjamin faz barulhos altos e bem agudos quando ele está animado. Algumas vezes, ele pula pra cima e pra baixo e sacode os braços também. Diga aos seus filhos que a razão pela qual crianças com autismo ou com outras necessidades especiais fazem isso é porque elas tem dificuldades pra falar, e é assim que elas se expressam quando estão felizes, frustradas ou, algumas vezes, até mesmo por alguma coisa que estão sentindo em seus corpos. Quando Benjamim faz barulhos, isso pode chamar a atenção, especialmente se estamos em um restaurante ou cinema. Então, é importante saber que ele não pode, sempre, evitar isso. E que isso é, normalmente, um sinal de que ele está se divertindo.”
— Jana Banin, do blog “I Hate Your Kids (And Other Things Autism Parents Won’t Say Out Loud)”; mãe de Benjamin, que é autista
5) Saiba que fazer amizade com uma criança com deficiência é bom para as duas crianças
“Em 2000, quando meu filho foi diagnosticado com autismo, eu tive muita dificuldade em arrumar amiguinhos para brincar com ele. Vários pais se assustaram, a maior parte por medo e desconhecimento. Fiquei sabendo que uma mãe tinha medo do autismo do meu filho ser “contagioso”. Ui. Treze anos mais tarde, sou tão abençoada por ter por perto várias famílias que acolheram meu filho de uma forma que foi tão benéfica para o seu desenvolvimento social. Fico arrepiada só de pensar nisso. A melhor coisa que já ouvi de uma mãe foi o quanto a amizade com o meu filho foi importante para o filho dela! Que a sua proximidade com o RJ fez dele uma pessoa melhor! Foi uma coisa tão bonita de se dizer. Quando tivemos o diagnóstico, ouvimos que ele nunca teria amigos. Os amigos que ele tem, agora, adorariam discordar. Foram os pais deles que facilitaram essa amizade e, por isso, serei eternamente grata.”
— Holly Robinson Peete, fundadora (com o marido Rodney Peete) da Hollyrod Roundation; mãe do RJ, que é autista (é ele, na foto abaixo, com sua irmã Ryan)
6) Encoraje seu filho a dizer “oi”
“Se você pegar seu filho olhando pro meu, não fique chateada — você só deve se preocupar se ele estiver sendo rude, mas crianças costumar reparar umas nas outras. Sim, apontar, obviamente, não é super educado, e se seu filho apontar para uma criança com deficiência, você deve dizer a ele que isso é indelicado. Mas quando você vir seu filho olhando para o meu, diga a ele que a melhor coisa a fazer é sorrir pra ele ou dizer “oi”. Se você quiser ir mais fundo no assunto, diga a ele que criança com deficiência nem sempre respondem da forma como a gente espera, mas, ainda assim, é importante tratá-las como tratamos as outras pessoas.”
— Katy Monot, do blog “Bird On The Street”; mãe do Charlie, que tem paralisia cerebral.
7) Encoraje as crianças a continuar falando
“As crianças sempre se perguntam se o Norrin pode falar, especialmente quando ele faz seu “barulhinho alto característico”. Explique ao seu filho que é normal se aproximar de outra criança que soa um pouco diferente. Algumas crianças podem não conseguir responder tão rápido, mas isso não significa que elas não têm nada a dizer. Peça ao seu filho para pensar no seu filme favorito, lugar ou livro—há grandes chances da outra criança gostar disso também. E a única forma dele descobrir isso é perguntando, da mesma forma que faria com qualquer outra criança.”
— Lisa Quinones-Fontanez, do blog “Autism Wonderland”; mãe do Norrin, que é autista
8) Dê explicações simples
“Algumas vezes, eu penso que nós, pais, tendemos a complicar as coisas. Usando algo que seus filhos já conhecem, que faça sentido pra eles, você faz com que a “necessidade especial” se torne algo pessoal e fácil de entender. Eu captei isso uns anos atrás, quando meu priminho me perguntou “por que o William se comunicava de forma tão diferente dele e de seus irmãos”. Quando eu respondi que ele simplesmente nasceu assim, a resposta dele pegou no ponto: “Ah, assim como eu nasci com alergias”. Ele sabia como era viver com algo que se tem e gerenciar para viver diariamente. Se eu tivesse dito a ele que os músculos da boca de William tem dificuldade em formar palavras, o conceito teria se perdido na cabeça dele. Mas alergia fazia sentido pra ele. Simplicidade é a chave.”
— Kimberly Easterling, do blog “Driving With No Hands”; mãe do William e da Mary, ambos com Síndrome de Down
9) Ensine respeito às crianças com seus próprios atos
“Crianças aprendem mais com suas ações que com suas palavras. Diga “oi” para a minha filha. Não tenha medo ou fique nervosa perto dela. Nós realmente não somos tão diferentes de vocês. Trate minha filha como trataria qualquer outra criança (e ganhe um bônus se fizer um comentário sobre o lindo cabelo dela!). Se tiver uma pergunta, faça. Fale para o seu filho sobre como todo mundo é bom em coisas diferentes, e como todo mundo tem dificuldades a trabalhar. Se todo o resto falhar, cite a frase do irmão de Addison: “bem, todo mundo é diferente!”.”
— Debbie Smith, do blog “Finding Normal”; mãe de Addison, que tem Trissomia 9
10) Ajude as crianças a ver que, mesmo crianças que não falam, entendem
“Nós estávamos andando pelo playground e a coleguinha da minha filha não parava de encarar o meu filho, que é autista e tem paralisia cerebral. Minha filha chamou a atenção da colega rapidinho: “Você pode dizer “oi” pro meu irmão, sabe? Só porque ele não fala, não significa que ele não ouve você”. Jack não costuma falar muito, mas ele ouve tudo ao redor dele. Ensine aos seus filhos que eles devem sempre assumir que crianças com deficiência entendem o que está sendo dito, mesmo sem poderem falar. É por isso que eles não vão dizer “o que ele tem de errado?”, mas poderão até dizer “Como vai?”.”
— Jennifer Byde Myers, dos blogs “Into The Woods” e “The Thinking Person’s Guide To Autism”; mãe do Jack, que tem autismo e paralisia cerebral.
11) Inicie uma conversa
“Nós estávamos no Museu das Crianças e um garotinho não parava de olhar para Charlie com seu andandor, e a mãe dele sussurrou em seu ouvido para não encarar porque isso era indelicado. Ao invés disso, eu adoraria que ela tivesse dito “esse é um andador muito interessante, você gostaria de perguntar ao garotinho e à sua mãe mais a respeito dele?”.”
— Sarah Myers, do blog “Sarah & Joe (And Charlie Too!)”; mãe do Charlie, que tem paralisia cerebral
12) Não se preocupe com o constrangimento
“Vamos combinar de não entrar em pânico caso seu filho diga algo embaraçoso. Você sabe, tipo se nós estivermos na fila do Starbucks e o seu filho olhar para a Maya e pra mim e disser algo como “Eca! Por que ela está babando?” ou “Você é mais gorda que a minha mãe”. Embora esses não sejam exemplos de início de conversas ideais, eles mostram que o seu filho está interessado e curioso o suficiente para fazer contato e perguntar. Por favor, não gagueje um “mil desculpas” e arraste seu filho pra longe. Vá em frente e diga baixinho o pedido de desculpas, se você quiser, mas deixe-me aproveitar a oportunidade: vou explicar a parte da baba e apresentar Maya e contar da paixão dela por crocodilos, e você pode ser a coadjuvante no processo, dizendo “lembra quando nós vimos crocodilos no zoológico?” ou coisa parecida. Quando chegarmos ao caixa, o constrangimento vai ter passado, Maya terá curtido conhecer alguém novo, e eu terei esperanças de que seu filho conseguiu ver Maya como uma criança divertida, ao invés de uma “criança que baba”. (E eu irei simplesmente fingir que não ouvi a parte do “mais gorda que a minha mãe”).”
— Dana Nieder, do blog “Uncommon Sense”; mãe da Maya, que tem uma síndrome genética não diagnosticada
Traduzido por Andréa Werner, do blog “Lagarta Vira Pupa“, com revisão de Patricia Almeida
Por Ellen Seidman, do blog “Love That Max
Por Ellen Seidman, do blog “Love That Max
quarta-feira, 24 de julho de 2013
domingo, 21 de julho de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Música e Autismo: uma linguagem de comunicação com a realidade
Música e Autismo: uma linguagem de
comunicação com a realidade
Por Álvaro Siviero – Música e Ciência
– O Estado de S. Paulo – 22fev12
Durante o carnaval debrucei-me sobre
filmes que abordam, direta ou indiretamente, o tema do autismo. Desde a
impecável interpretação de Dustin Hoffman em Rain Man ou Bruce
Willis na trama Código para o Inferno, a temática também é abordada
em sucessos menores como o tocante Meu filho, meu mundo. Em todos
eles, é impossível não se envolver com as refinadas e especiais capacidades
apresentadas pelos personagens considerados “não normais” pelo mundo atual. Big
mistake. Fica a pergunta: por que o mundo atual, esvaziado de parâmetros, se
julga autoridade moral para definir o conceito de “normalidade”? Deliciei-me,
especialmente, na comédia romântica Loucos de amor (em
inglês Mozart and the Whale). Inspirada na vida de duas pessoas com
a Síndrome de Asperger, uma forma de autismo, a vida dos protagonistas – e o
coração – ficam de cabeça para baixo quando a paixão surge.
Falo disso, pois é intrigante saber
que a música, minha profissão, é canal de facilitação e promoção no
entendimento destas manifestações autistas. A Musicoterapia promove a
comunicação, relacionamento, aprendizado, mobilização, expressão, organização,
entre muitos outros aspectos, da pessoa humana, indo ao encontro de suas
necessidades físicas, mentais, sociais ou cognitivas. Qualquer pessoa pode ser
tratada com musicoterapia. Por ser técnica de aproximação, reduz problemas
emocionais ou atitudes que demandariam grandes doses de energia psíquica. É um
canal universal de comunicação com o mundo que utiliza como elemento principal
a única e verdadeira linguagem universal existente: a música.
Estudiosos afirmam ser a música a
única ponte de comunicação possível aos portadores deste tipo de comportamento
(1. A musicoterapia no tratamento de crianças com
perturbação do espectro do autismo –
Marisa do Carmo Prim Padilha; 2. Adolescência e autismo: a musicoterapia como
auxiliar na diminuição das dificuldades -
Fernanda Valentim e Leomara Craveiro de Sá. Pessoalmente, tive a oportunidade
de travar contato com esta realidade através da ONG Autismo&Realidade (http://www.autismoerealidade.org/), fundada no dia 09 de julho de 2010, através do
casal Paula Balducci de Oliveira e Hermelindo Ruete de Oliveira. “É minha
própria vida”, afirma Paula. “Sou uma pessoa abençoada por Deus e neste
trabalho de voluntariado encontrei a forma de devolver à sociedade o que
recebi”. O entusiasmo e determinação dos entrevistados acabou contagiando toda
a família. “A causa é da família”, afirma o casal cuja filha Júlia, estudante
de pós-graduação em produção cultural, caminha com esta realidade.
Que
o poder da música una-se, sempre, a iniciativas como essa. E que muitas pessoas
se utilizem da música para crescimento. Vale conferir!
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quarta-feira, 10 de julho de 2013
ESTRATÉGIAS DE ENSINO PARA CRIANÇAS COM AUTISMO
A
organização do ambiente de ensino é fundamental para que crianças com autismo
permaneçam na atividade proposta e sintam-se motivadas a aprender. A
desorganização do ambiente, assim como a falta de planejamento das atividades,
podem causar agitação na criança, desviando seu foco.
Os locais
onde a criança come, aprende e se diverte devem estar claramente sinalizados, e
não é conveniente manter à sua vista excesso de materiais. Se for o momento de
alimentação, por exemplo, a criança deve visualizar somente a comida,
retirando-se de seu alcance jogos e evitando-se que assista à televisão.
Como
todas as crianças, alunos com autismo também precisam de espaços para
recreação, se possível em lugares amplos e abertos, uma vez que a maioria não
gosta de lugares muito fechados.
A
utilização de materiais visuais, como fotografias e ilustrações, também são
úteis no processo de educação de crianças com autismo, pois elas possuem grande
capacidade de armazenar imagens em seus cérebros. As imagens são úteis tanto
para a aprendizagem quanto para o desenvolvimento da comunicação e para
aumentar sua compreensão e regular seu comportamento social.
Ao
ensinar à criança como cumprimentar as pessoas, por exemplo, é importante
mostrar um cartaz ou fotografia de mãos se apertando. Ao anunciar a hora do
recreio, o professor pode mostrar uma fotografia do parque da escola, e ao
encerrar as atividades do dia, pode mostrar uma ilustração de casa, para
indicar à criança que ela agora retornará ao seu lar.
Fonte:
Desafiando el autismo.
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