Ally e Ryan

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Livros sonoros: audiolivro, audiobook e livro falado

- Patrícia Silva de Jesus.

O mercado editorial está vivenciando um verdadeiro boom, uma avalanche de livros em áudio que, ao lado dos digitais para tablet, tem revolucionado o conceito de livro. No âmbito da Educação Inclusiva, os livros sonoros foram adotados como recurso complementar ao Sistema Braille. Pelas características comuns entre Livro Falado e Audiolivro, existe certa confusão conceitual naqueles que não estão diretamente ligados a este ramo da Acessibilidade, pois fundem ambos os formatos em uma só classificação.

Com o avanço das Tecnologias Assistivas [recursos tecnológicos para auxiliar pessoas com deficiência em suas atividades cotidianas] e outras tecnologias digitais, novas formas de produção de livros sonoros estão surgindo. Livros em DAISY, Mecdaisy, Livro Falado, Audiolivro são termos que diariamente se escuta ou se lê e isso requer um estudo mais atento sobre cada formato, bem como sobre o público a ser beneficiado com estas produções.

Audiolivro, Audiobook e Livro Falado: são todos a mesma coisa?

A origem do audiolivro [tradução de audiobook], versão artística de um livro de papel, assim como uma peça de teatro, um filme, uma novela etc, se confunde com a própria pós-modernidade. Existe uma metáfora do Bauman que fala sobre o homem correr em uma fina camada de gelo sem destino. Não sabe aonde vai, mas, se parar, afunda! O audiolivro é uma obra para atender a esse público pós-moderno que necessita fazer mil coisas enquanto corre na “superfície gelada” [ou mesmo durante os congestionamentos de automóveis nas grandes metrópoles]. Uma marca do audiolivro é a dramatização da leitura, às vezes feita por mais de um locutor, na maioria dos casos atores, contando com sonoplastia [trilha sonora e efeitos especiais], ambientando a obra e orientando a interpretação que o diretor deseja que o público leitor atinja. No Brasil um marco da produção de audiolivro foi a gravação da Bíblia Sagrada por Cid Moreira nos anos 90.

O Livro Falado tem registro de nascimento no Rio de Janeiro, em janeiro de 1970, por intermédio do professor cego Beno Arno Marquardt que, apoiado pela leitora Lenora Andrade, construiu um acervo de mais de cinco mil livros falados. Desde então, começou-se a chamar de leitor as pessoas com deficiência visual que liam (escutavam) os livros e de ledor aqueles que os liam para estes. Eram realizadas leituras voluntárias, dando origem ao Clube da Boa Leitura. O Livro Falado é um complemento do livro em Braille, tem um público especial e pode ser isento de restrições de direitos autorais pela lei 9.610/98 que assegura a reprodução de obras literárias para fim de educação de pessoas com deficiência visual, desde que não haja fim lucrativo.

Quanto à disposição do conteúdo, existem normas de acessibilidade a serem obedecidas, incluindo a busca por uma leitura bem pontuada, clara e viva, mas não dramatizada [quem tem que construir o significado do conteúdo lido é o leitor e não o ledor]. Existem especificidades também em relação à descrição de imagens [audiodescrição], elucidação de aspectos gráficos tais como aspas, parênteses, colchetes, soletração de termos estrangeiros, duração de cada faixa, etiquetagem em Braille e outras formas de acessibilidade. Atualmente é possível criar Livros Falados a partir de vozes sintetizadas muito semelhantes à voz humana.

A diferença mais marcante entre um audiolivro e o Livro Falado é mesmo a carga de emoção posta na leitura, já que é impossível interromper uma leitura artística para citar, por exemplo, início e fim de aspas ou soletrar uma palavra de idioma estrangeiro sem comprometer a estética da apresentação. Em termos mais técnicos, o Livro Falado é uma Tecnologia Assistiva, cujo objetivo é o acesso à informação com o mínimo de interferência de interpretação de terceiros e o Audiolivro é um desdobramento artístico de uma obra literária, não significando que uma pessoa cega não possa utilizar este último, caso deseje.

Certa vez, quando trabalhava em um setor de biblioteca especialmente desenvolvido para o atendimento a usuários com deficiência visual, um senhor cego me solicitou alguns livros sonoros e entre eles estava um audiolivro. Na devolução, eu quis saber sua opinião sobre a “audioleitura” e ele disse: “os livros sem dramatização na voz e sem trilha sonora me fazem ser mais independente; aquele com efeitos especiais me tiraram o gostinho único de interpretar a obra e construir meu significado com autonomia”. Essas palavras me tocaram profundamente e me motivaram a pesquisar mais sobre esses formatos.

Livro Digital Acessível no Padrão Daisy.

Os livros no padrão internacional DAISY (Digital Accessible Information SYstem), são obras audiovisuais que convergem imagem, texto e som em um só produto, podendo ser utilizado por pessoas com diferentes limitações sensoriais ou mesmo aquelas que não possuem deficiência legal.

Os livros em DAISY ainda são pouco conhecidos no Brasil. O Ministério da Educação [MEC] adotou esse formato e toda editora que deseje concorrer com seus livros nos processos licitatórios de obras didáticas e paradidáticas terão de apresentar uma cópia na versão digital acessível.

Livros neste padrão, quando gerados, apresentam-se em um diretório com dezenas de arquivos aleatórios de imagem, texto e som, sendo necessário um tocador específico para sincronizar os arquivos contidos neste diretório, objetivando a apresentação, na tela do computador, de uma obra sonora, imagética e, principalmente, acessível, já que as legendas descritivas das imagens deverão obedecer aos princípios da audiodescrição. Para que este diretório de arquivos aparentemente desconexos possa se sincronizar, é necessário um tocador específico, para apresentar texto, imagem e som simultaneamente, oferecendo ao leitor uma obra acessível, com soletração, inserção de comentários, saltos de páginas em uma situação análoga à da leitura em livros de papel.

No Brasil, o tocador mais utilizado é o Mecdaisy, desenvolvido pelo MEC, seguido do DDReader, desenvolvido pela Fundação Dorina, que distribui gratuitamente, para todo o país, livros acessíveis em Braille e audio há décadas. O tocador Mecdaisy e o DDReader são programas capazes de reproduzir livros no padrão Daisy, assim como o Winamp e o MediaPlayer são capazes de reproduzir arquivos em MP3. A extensão de um livro em DAISY é .opf.

Patrícia Silva de Jesus

Especialista em Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva [UNEB], Consultora da UNESCO no Projeto Livro Acessível [2009 – 2011];

Professora de Tecnologias e Educação [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES/Universidade do Estado da Bahia - (UNEB);

Experiência em Tecnologia Assistiva, alfabetização de pessoas cegas, Audiodescrição, editoração de livros acessíveis em formato Braille, Livro Falado e Daisy.

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