Ally e Ryan

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sábado, 9 de janeiro de 2010

Motofaixa - polêmica exibida na Folha de São Paulo

Matéria publicada dia 08 de janeiro de 2010 no caderno "Cotidiano" da Folha:

Motofaixa vai trazer mais custo do que benefício, diz técnico

Para Alexandre Zum Winkel, o corredor na Vergueiro, que deverá ser implantado até março, terá pouca utilidade

De acordo com ele, os ônus vão de gastos a estímulo ao transporte individual, e a medida não vai atrair motociclistas da 23 de Maio

ALENCAR IZIDORODA REPORTAGEM LOCAL
A motofaixa que a gestão Gilberto Kassab (DEM) pretende implantar até março deste ano no corredor da Vergueiro terá pouca utilidade e poderá trazer mais ônus à cidade de São Paulo -tanto pelos gastos como pelo estímulo ao transporte individual- do que vantagens."É mais um custo para a cidade manter do que um benefício", avalia Alexandre Zum Winkel, 44, consultor em trânsito que trabalhou mais de 20 anos na CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).A prefeitura começará no dia 15 as obras da faixa exclusiva entre a praça João Mendes (centro) e a Vila Mariana (zona sul), com 7 km de extensão (3,5 km em cada sentido).Para Winkel, ela não irá atrair espontaneamente os motociclistas da 23 de Maio, terá baixa adesão e pouca utilidade -porque a rota das avenidas Noé de Azevedo, Vergueiro e Liberdade não tem tráfego intenso de motos nem é um dos pontos críticos em acidentes.Embora avalie que as motofaixas estimulem a disseminação desses veículos e que isso contraria as políticas de transporte coletivo e de melhoria da segurança viária, ele considera justificável a implantação delas nos corredores com grande fluxo de motos devido à possibilidade de reduzir as mortes.Leia, a seguir, trechos da entrevista:

FOLHA - Criar uma motofaixa no corredor da Vergueiro é bom?
ALEXANDRE ZUM WINKEL - Estão fazendo sempre motofaixas em avenidas que não têm [grande fluxo de motos]. É como a Sumaré. Você já viu motoboy na Sumaré? Lá vai ter só um pouco mais. E você não obriga os motoqueiros a andar nela, eles podem andar fora da faixa. Mas algumas avenidas, como a 23 de Maio, têm índices de acidentes tão altos que isso se justificaria.

FOLHA - A moto merece prioridade no transporte viário, mesmo tirando espaço dos demais veículos?
WINKEL - A moto causa muitos acidentes na cidade e transtornos imensos todos os dias. A regulamentação da lei permitiu que ela andasse nos corredores entre os veículos. O problema já existe, e os escritórios, por exemplo, não viveriam mais sem os motoboys. Então há uma dificuldade de como trabalhar com isso. Onde tem capacidade viária poderia ser interessante colocar a faixa, mas onde ela tem importância.

FOLHA - O lugar escolhido, no corredor Vergueiro, não é muito útil?
WINKEL - É pouco útil. Tudo que você coloca e que não é respeitado perde a função. É como colocar um semáforo num cruzamento onde ninguém respeita e todos passam no vermelho.

FOLHA - Os motoqueiros vão sair da 23 de Maio espontaneamente para usar a motofaixa da Vergueiro?
WINKEL - Não. Ela vai ter uma utilização um pouco maior do que tem hoje na Sumaré, onde é praticamente zero. Mas não é a solução do problema. É mais um custo para a cidade manter do que um benefício. A solução são os corredores onde há maior número de acidentes.

FOLHA - Criar uma motofaixa não é um estímulo ao uso das motos?
WINKEL - É um incentivo para comprar mais motos. E isso é contraditório com os planos de melhoria do transporte público. Em grandes avenidas, pode se justificar pelo número de mortes, pela segurança.
FOLHA - Não haveria esse estímulo mesmo se a faixa fosse nas principais avenidas com fluxo de motos?
WINKEL - Mas, se fosse criada uma faixa com a possibilidade de ultrapassagem e as motos não pudessem andar nas demais, poderia haveria utilidade. E a quantidade de mortes justificaria qualquer medida.
Matérias publicadas dia 09 de janeiro de 2010 no caderno "Cotidiano" da Folha:
Apesar da motofaixa, índice de acidentes é alto na Sumaré

Em dois anos e meio, 83% dos acidentes com vítimas na avenida envolveram motocicletas
Ainda assim, gestão Kassab vai implantar uma nova motofaixa do centro à Vila Mariana com a justificativa de melhorar a segurança
ALENCAR IZIDORODA REPORTAGEM LOCAL
Mesmo depois da implantação de uma faixa exclusiva para as motocicletas, 83% dos acidentes com vítimas no corredor da av. Sumaré (zona oeste) envolveram esses veículos.
Segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), que vai implantar uma nova motofaixa do centro à Vila Mariana com a justificativa de melhorar a segurança, 123 dos 148 acidentes registrados na via durante dois anos e meio (de 2007 ao primeiro semestre de 2009) envolveram as motos -há pelo menos um a cada semana.
Essa proporção é muito superior à média da capital paulista, onde as motocicletas representam 12% da frota e um terço das mortes no trânsito.
O presidente da CET e Secretário de Transportes, Alexandre de Moraes, se recusa a informar os acidentes e mortes no corredor Sumaré antes da implantação da motofaixa, em setembro de 2006, para que seja possível a comparação do número de ocorrências na fase anterior e posterior à medida.
Mas técnicos da CET já declararam que não houve redução de acidentes no corredor.Relatórios apresentados pela gestão Gilberto Kassab (DEM) ao Contran (Conselho Nacional de Trânsito) mostram que, em maio de 2006, antes da motofaixa, houve dois acidentes com motos na Sumaré; no mesmo mês de 2007, um, e no de 2008, seis.
A CET já chegou a divulgar, há quatro anos, que só 17% dos acidentes na Sumaré envolviam motos (8 de 46) -mas não diz se os critérios para computá-los são iguais.
Outro resultado da implantação da motofaixa da Sumaré no corredor das avenidas Noé de Azevedo, Vergueiro e Liberdade (onde ela deve ficar pronta até março) é a diminuição da velocidade dos demais veículos.
Na Sumaré, conforme relatório enviado pela CET ao Contran, houve redução de 21% na velocidade média dos carros, principalmente devido ao estreitamento das demais faixas de tráfego para que a via pudesse receber a motofaixa.
Além disso, a velocidade máxima caiu de 70 km/h para 60 km/h.Há um ano e meio, uma técnica do alto escalão da CET disse à Folha que, embora os acidentes na Sumaré não tivessem caído, houve uma mudança no perfil das ocorrências.
Em 1/3 dos casos, as motos passaram a ser atingidas por outros veículos que invadem a faixa exclusiva para realizar conversões à esquerda (que são proibidas pela sinalização).
A autorização experimental dada à CET pelo Contran para implantar essa medida venceu em setembro de 2008. Desde então, eventuais multas aplicadas aos veículos que invadem a faixa exclusiva das motos na Sumaré não têm validade, segundo o órgão federal.
A CET não se manifesta nem diz se tem aplicado essas multas.
Secretário de Kassab se recusa a divulgar dados
DA REPORTAGEM LOCAL

O secretário dos Transportes e presidente da CET, Alexandre de Moraes, se nega a revelar os dados de acidentes e mortes para a comparação do período anterior e posterior à implantação da motofaixa da av. Sumaré, em setembro de 2006.
Os pedidos, feitos pela Folha nos últimos dois anos, foram reforçados nesta semana tanto à pasta (que é assessorada pela Giusti Comunicação) como à assessoria direta do prefeito Gilberto Kassab (DEM).Na resposta enviada por Andréa Wolffenbüttel, coordenadora de comunicação da secretaria, só foram informadas as estatísticas de acidentes depois de 2007 (nem as de mortes nem as de 2006 e 2005).
A resposta da pasta diz que os dados "somente podem ser comparados" a partir da implantação da motofaixa devido às alterações no sistema viário", que conformaram "um novo quadro de trânsito".Essas alterações, afirma, envolvem a alta do fluxo de motos nos picos, de 300 motos/hora para 480 motos/hora, a segregação automóveis/motos com a nova motofaixa e a instalação de semáforos, por exemplo.
A nota diz que houve "primeiramente uma estabilidade" do número de acidentes "com uma posterior e significativa tendência de queda". O texto diz que os acidentes com motos saltaram de 47 (em 2007) para 54 (em 2008) -e no primeiro semestre de 2009 somaram 22. A quantidade total permaneceu estável em 61 nos dois primeiros anos e foi de 26 nos primeiros seis meses de 2009.

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